Desatino! nº5 – Boletim das XXV Jornadas

Cabeçalho boletim #5

Olá pessoal,

Está chegando a hora!

Estamos na contagem regressiva para o início das XXV Jornadas Clínicas sobre Loucuras e Amores na Psicanálise.

O Boletim Desatino! #5 apresenta as novas colaborações de nossa comunidade recebidas ao longo do mês de outubro e outras ainda bem recentes. Contribuições que, com a diversidade presente nas reflexões, muito enriqueceram o preparo do evento que se anuncia.

Na categoria Orientação ponto a ponto, a novidade é o texto de Isabel Lins, “Letras, Amores e Dissabores”. A categoria Pólis-amores e loucuras recebeu quatro novos textos: “Corpos na pólis”, por Renata Estrella, “Da segregação à invenção: a importância da precariedade”, de Paula Legey , “Os oásis nossos de cada dia”, por Maricia Ciscato e “Particularizar o cuidado: uma direção de trabalho possível na pediatria oncológica superespecializada”, de Ana Beatriz Rocha Bernat. Finalizando as contribuições, na categoria Todo mundo lê, contamos com a resenha do texto “Paixões em “Bloque”, por Angela Batista. Desejamos a todos uma ótima leitura!

A preparatória para as Jornadas aconteceu no dia 03 de novembro, no auditório do IPUB-UFRJ, com a exibição do filme “Corpo Elétrico”. Tivemos, na sequência, um debate com a presença do diretor do filme, Marcelo Caetano, além de Marcus André Vieira e Paulo Vidal, convidados para essa conversa que “deslizou como a cena de um poema”.  Assim Andrea Vilanova descreveu esse belo encontro, com precisão e delicadeza, no texto  “Um brinde ao impossível”, que muito enriqueceu a categoria Todo mundo vê, em nosso blog. Nesta mesma categoria, também contamos com a generosa contribuição de Paulo Vidal, apresentada na preparatória. Seu texto, “Provocado pelo Corpo Elétrico”, enfatiza a bricolagem de que somos feitos e com a qual cada um de nós terá que se reinventar, tão bem apresentada no filme.

Além de todas essas produções animadoras pré-Jornadas, temos também já disponíveis na Seção Rio, para todos os inscritos, os textos que servirão de base para a discussão na Conversação clínica das XXV Jornadas. Não deixe de pegar os seus!

A comissão de livraria trabalhou para selecionar excelentes títulos para as Jornadas!  Confira em https://loucuraseamores2017.wordpress.com/category/desatino-boletim-das-xxv-jornadas/   algumas novidades e destaques do Bazar, como também os lançamentos que ocorrerão na sexta-feira, às 19h.

Lembramos também que o credenciamento antecipado pode ser feito para os inscritos nas XXV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ.  Essa é uma forma de evitar filas na abertura. Não deixe para a última hora!                                                                 

Local: Sede da EBP Rio, rua Capistrano de Abreu, 14. 

Para se inscrever nas XXV Jornadas, ligue para a secretaria da EBP Rio (2539-0960) ou do ICP RJ (2286-7993).

Curta a página da EBP Rio no Facebook, confirme a presença no evento das XXV Jornadas e siga nosso Instagram, @loucuraseamores2017.                                                                          

Esperamos por você!

Comissão de Divulgação e Mídia

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Provocado pelo Corpo Elétrico*

Por Paulo Vidal

O filme Corpo Elétrico, dirigido por Marcelo Caetano, faz passar uma corrente elétrica entre membros de conjuntos aparentemente separados – a fábrica de tecidos, o movimento LGBT –  provocando interseções inesperadas entre eles, embora não impossíveis. Para quem foi mordido pela psicanálise, é impossível não ser interrogado pelo experimento de criação de mundos encetado por esse filme extremamente atual e político: pegue uma multiplicidade de corpos, marcados cada um deles por diversos traços identificatórios (operário, gay, negro, imigrante, hétero, drag, evangélico), retire os tabiques e hierarquias que os segregam, fazendo com que os corpos se movam, se encontrem, se choquem.

É antológica a cena perto do final do filme, na qual o casal de evangélicos tem sua união sacramentada por uma drag queen, gays, operários… As roupas, os adereços dos noivos são inventivamente improvisados com o que se tem à mão: pedaços de tecido, flores, copos, numa bricolagem engraçadíssima. A cena mostra como as roupas de cada um de nós são tecidas a toda hora pelo corte e costura de pedaços de tecido que herdamos, tomamos emprestado, etc. Como diz o personagem Elias a Wellington quando recolhem restos num depósito da fábrica: “tudo é resto de tecido e coisa que não deu certo”.

Daí a importância de reconhecermos que, se temos algo em comum, é o fato de que somos todos bricoleurs, feitos de “coisa que não deu certo”, mas com a qual cada um de nós se vira, inventando, estilizando os possíveis. Basta que o sujeito abra a boca em análise para se dar conta que cada um de nós difere de si mesmo, é habitado por uma alteridade interna. Quando alguém considera que a sua roupa particular representa o modo de gozo ideal, o uniforme ao qual todos os outros gozos deveriam se conformar, essa alteridade interna suprimida em si retorna desde o outro, cujo modo de gozo passa a ser odiado porque sujo, danoso, etc. Numa palavra, é o racismo, a homofobia, etc.

Se o amor é a forma por excelência de nós, sujeitos à falta a ser, conquistarmos um ser, um personagem do filme diz para a moça que paquera: todos nós precisamos de um “complemento”, sejamos nós héteros ou gays. No filme, as parcerias amorosas são sempre abertas ao mundo, operando uma distinção entre particular e singular: o singular é o particular menos os muros. O que me faz colocar uma pergunta: como foi fazer esse filme, cujo elenco, composto por atores tão diversos, transmite tamanha alegria?

Em segundo lugar, um amigo marxista da velha guarda me diria que esse filme era “a classe operária vai ao paraíso”. De fato, parece-me que há uma paródia bíblica: o protagonista se chama Elias, personagem que, na bíblia, anuncia a chegada do Messias. No entanto, não há apelo à transcendência alguma, a outro mundo, seja o paraíso bíblico ou o socialismo; o filme é imanentista. Quanto à fábrica, é uma fábrica de tecidos, fábrica que funciona como paradigma em O Capital, de Marx. Entretanto, os trabalhadores parecem mais saídos da chamada “nova classe média”, aos quais o sociólogo Jessé Souza prefere denominar “batalhadores” (2012).

Logo que é admitido na fábrica, o personagem imigrante recebe as instruções de como usar o corpo para efetuar os movimentos que as máquinas da cadeia de produção exigem: precisos, monotonamente repetitivos, mortificantes. Num dos mais belos planos do filme, o personagem Elias é tomado pelo tédio, ou seja, pelo desejo de outra coisa, desejo que atravessa como um fio os personagens, embora sob nomes diversos: um quer casar, mas não dispõe de recursos; outro quer deixar a fábrica e atuar em shows.

Se emprego o termo “mundo”, é porque as lutas anticapitalistas tinham a ideia de que o trabalho constitui um mundo comum, um cadinho que nos permitiria projetar outro mundo possível, liberto dos grilhões do capital. Ora, o trabalho hoje deixou de fazer mundo comum e desapareceu a ideia escatológica de outro mundo, a qual operava numa distinção entre meios e fins: trabalhadores, sejam instrumentos do partido, vanguarda que vos orientará porque conhece de antemão os fins. Contudo, tampouco há que ficarmos lamentando pelo mundo imundo, a grande catástrofe. Muito pelo contrário! Uma multiplicidade de movimentos (negros, mulheres, loucos, LGBT, deficientes) cria mundos nesse mundo, oásis no deserto, abrindo assim a questão da compossibilidade dessas ações, dos trajetos a serem inventados entre os oásis (ARENDT, 2013). Daí a importância da arte no filme, como meio de criar mundos, mas como meio inseparável dos fins.

 

*Comentário apresentado no debate com o diretor do filme Corpo Elétrico, Marcelo Caetano, ocorrido após a exibição do filme em evento preparatório para as XXV Jornadas da EBP Rio e ICP-RJ, no dia 03/11/2017, no auditório Leme Lopes do IPUB.

 

Referências bibliográficas

ARENDT, H. O que é política? Rio de Janeiro: Ed. Bertrand Brasil, 2013.

SOUZA, J. Os batalhadores. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2012.

Desatino! Extra – Ementas dos cursos

Olá pessoal!

Nossas Jornadas se aproximam e alguns esclarecimentos se fazem importantes. O trabalho deste ano será animado, já iniciando na sexta-feira de manhã! Das 9h às 11h, teremos quatro diferentes cursos discutindo casos clínicos que conversam com o tema de cada eixo.

Para quem está inscrito nas Jornadas, é só chegar e escolher na hora qual dos cursos quer assistir. Confiram as ementas:

Eixo 1. Parcerias: O que há?
Curso: Sobre os casos Uma mulher pródiga e Uma Eva negra
Coordenação: Mirta Zbrun e Sarita Gelbert

Utilizando dois casos clínicos, um de neurose e um de psicose, o curso abordará a
relação transferencial e a posição do analista ‘parceiro sintoma’, que possibilitam, no
tratamento, a criação de um ‘novo amor’.
O caso de Oscar Ventura, Uma mulher pródiga, e o caso de Jean-Louis Goult, Uma Eva negra, mostram de forma muito precisa o cálculo nas intervenções do analista que orientam a condução do tratamento. Há ensino teórico e clínico em ambos os casos no que se referem às parcerias em análise e é isso que este curso se propõe a transmitir.

Eixo 2. A transferência: entre o amor e o saber
Curso: Sobre o caso Anna O. e o testemunho de passe de Silvia Salman
Coordenação: Doris Diogo e Stella Jimenez

No caso de Anna O. (Berta Pappenheim), veremos o que foi o começo da psicanálise, a incidência da transferência tanto no inconsciente transferencial como no real, e o embaraço da contratransferência.
Também abordaremos as versões do amor no testemunho de passe de
Silvia Salman: da repetição do amor ao pai, atualizado na transferência, ao
enodamento do amor e da pulsão no sinthoma.

Eixo 3. Sobre o uso diagnóstico: da classificação à singularidade
Curso: Sobre os casos Um caso nem tão raro e Um sujeito no nevoeiro
Coordenação: Maria Inês Lamy e Maria Lídia Arraes Alencar

Em Um caso não tão raro, Jean-Pierre Deffieux defende a importância de se
perceber, em cada sujeito, se há “efeitos clínicos mínimos de algo destoante na amarração RSI”. Sem desprezar a diferença entre neurose e psicose, a ênfase recai agora não tanto na classificação diagnóstica e sim na singularidade das amarrações sintomáticas de cada um. Já o caso de Hervé Castanet, Um sujeito no Nevoeiro, elucida a psicose ordinária por se tratar de alguém que, vivendo dentro da NORMA, sem evidência de desencadeamento, ensina sobre uma posição singular frente ao Outro, habitando um ‘eterno presente’. As sutilezas de uma ‘indecidibilidade’ no falar apontam a questão diagnóstica: ponto-de-basta ou nevoeiro?

Eixo 4. Violência e amor
Curso: Sobre os casos Aimeé e O amor louco de uma mãe
Coordenação: Cristina Duba e Manoel Barros da Motta

Um primeiro ponto a destacar neste binômio de que nos ocuparemos, a violência e o amor, diz respeito a situar o que é violência no campo da psicanálise: podemos situá-la como um conceito único ou será necessário pluralizá-la? É preciso certamente distingui-la da agressividade, que faz forma de parceria imaginária, com o amor. Nos dois casos, Aimeé, de J. Lacan, e O amor louco de uma mãe, de Éric Laurent, o amor atravessa as formas do amor materno, em sua face violenta, desmedida, além da mediação fálica. Essa é outra das dimensões que levaremos em conta para abordar o tema proposto, ou seja, a loucura da violência materna e suas relações com a loucura feminina.

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Aproveitem para se credenciar com antecedência na secretaria da Seção Rio, evitando filas no dia do evento.

Até breve!!!

Comissão de Divulgação e Mídia

Desatino! Extra – Informes da Comissão de Livraria

Olá pessoal,

A comissão de livraria preparou uma super seleção de livros para as Jornadas! Confira o que vem por aí:

Em destaque no Bazar: 

EL MISTERIO DEL CUERPO HABLANTE

Autora: Araceli Fuentes 

Editora: Gedisa Editorial

Anos: 2016

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Link da entrevista com Araceli Fuentes sobre seu livro: http://www.radiolacan.com/pt/topic/830/3

Lançamentos, sexta-feira, 10 de novembro, às 19h:

 

LOUCURA E RESPONSABILIDADE: CONSENTIMENTO ÀS FICÇÕES JURÍDICAS

Autor: Fernando Casula

Editora: ARTESÃ EDITORA LTDA

 

A responsabilidade no universo da Loucura é analisada a partir de um relato ficcional, no contexto da internação psiquiátrica decorrente de homicídio. Examina-se, principalmente com Michel Foucault, o produto da inter-relação dos saberes disciplinares (psiquiátrico e jurídico), ou seja, a constituição da ficção da norma universal, que dá origem à exclusão dos doentes mentais do campo da responsabilidade penal. Em contrapartida, a psicanálise de orientação lacaniana, ao aproximar os desígnios do termo “responsabilidade” à sua raiz semântica, “resposta”, define por “responsabilidade” os modos singulares de o sujeito assentir àquilo que está na posição de “causa”: a estrutura da linguagem e, sobretudo, o real. Pois, como aponta o relato ficcional, a norma jurídica ao determinar, de forma genérica, a não punição dos doentes mentais pelos atos, longe de protegê-los, tal como espera o legislador, os expõe, assim como toda a sociedade, aos perigos constantes de um real desregrado (Sinopse).

 

Link da entrevista com Fernando Casula disponível no site da Seção Minas:

http://minascomlacan.com.br/entrevista-com-fernando-casula/

 

PSICOPATOLOGIA LACANIANA, volume 1- Semiologia

Orgs. Antônio Teixeira e Heloisa Caldas

Editora: Autêntica, 2017

“Esta obra não possui equivalente na psicanálise de orientação lacaniana. Sua realização só poderia ser possível no Brasil, país onde se tece uma relação particular entre os movimentos de reforma psiquiátrica e nossa orientação psicanalítica. Este livro dá todo seu lugar ao sujeito como tal no campo da psicopatologia, sem se esquecer das hipóteses que ele pode tomar no caráter e na personalidade.” Éric Laurent.

 

CRIAR E FRUIR DA ARTE

Autora: Maria Lidia Arraes Alencar

Editora Prismas,  2017.

O livro trata da fruição da arte, tanto para quem cria a obra, quanto para quem é tocado por ela. Realizando um percurso pela contribuição da psicanálise a esse respeito, a autora articula os momentos mais significativos da obra de Freud sobre o tema com grande parte dos ensinamentos de Lacan sobre a arte, destacando descobertas preciosas de Freud e de Lacan a respeito do gozo implicado no ato de criar e no ato de fruir da obra como expectador. (Apresentação)

 

O CRIME, À LUZ DA PSICANÁLISE LACANIANA

Autor: Manoel de Barros da Motta

Editora: Forense Universitária – 2017

Depois de ter estudado a punição no Brasil com minha Crítica da razão punitiva (Forense Universitária, 2011), dedico-me agora a elucidar o problema do crime, questão extremamente atual, seja no mundo, seja no Brasil.

Terrorismo, toxicomanias, tendência mais a vigiar e punir, levantar a questão da causalidade do crime. Da responsabilidade do sujeito criminoso não poderia ser mais atual. Principalmente neste momento em que a justiça detém o máximo poder no Brasil. Esta investigação é direcionada a crimes que a interrogação lacaniana das psicoses ajuda a esclarecer do ponto de vista teórico e clínico. Uma tipologia tornou-se possível a partir dos registros do real, simbólico e Imaginário – uma criminologia a partir da orientação lacaniana. Landru, assassino de 11 mulheres guilhotinado na Belle époque, Aimée, que atentou contra a atriz Hugette Duflot, as irmãs Papin, Pierre Rivière, Eppendorfer, Ulrich são interrogados na particularidade de seus casos. Manoel Barros da Motta (Quarta capa)

Um brinde ao impossível

Por Andrea Vilanova

“Ser rodeado pela carne bela, curiosa, palpitante, sorridente é o bastante,
Passar entre eles, ou tocar todos eles, ou descansar meu braço mesmo bem de leve em torno ao ombro dele ou dela por um momento — o que significa isto, então?
Não exijo nenhum deleite maior que este — nado nele, como num mar.” (WHITMAN, 1881 [1885]).

 

Neste fragmento de Walt Whitman, em seu poema Eu Canto o Corpo Elétrico, recorta-se uma cena do filme do cineasta Marcelo Caetano.

Na noite da última sexta-feira, realizamos uma bela preparatória para nossas Jornadas, com a exibição do filme Corpo Elétrico, seguida de debate com a participação do diretor e com a presença de Marcus André Vieira e Paulo Vidal como debatedores, sob a coordenação de Andrea Reis.

A realização da preparatória deslizou como a cena do poema. Éramos uns entre os outros, rodeados pela presença palpitante daqueles que animaram o debate, do vigor do cineasta e da platéia atenta.

Um filme retrato de amores sem conflito, sem drama, surpreendendo o espectador e interrogando os analistas. Personagens simplesmente vivos e humanamente eloquentes em seu savoir-faire, a despeito do chão da fábrica, ou do peso dos dias.

Marcelo Caetano nos brindou com a realização do impossível, ainda que improvável, que faz da contingência do encontro a carne da vida.

Que assim prossigamos, aprendizes daquilo que a arte, ao anteceder a psicanálise, coloca no mundo: o ingovernável, matéria de que somos feitos.

 

Particularizar o cuidado*: uma direção de trabalho possível na pediatria oncológica superespecializada

Por Ana Beatriz Rocha Bernat

“Uma clínica de atendimento paliativo resta a inventar; uma clínica que leve em conta a assimetria necessária que existe entre o paciente e o profissional, uma clínica que não se contente em definir a boa distância entre o atendente e a cabeceira daquele a quem ele se dirige. Esta clínica poderia ser uma clínica da relação do paciente ao saber do profissional, e da relação do profissional ao saber do paciente. Talvez a este último poderíamos assim oferecer algo, com o qual fazer ainda, com a vida que lhe resta, uma história”
(MALENGREAU, 1995, p. 90).

 

As XXV Jornadas Clínicas se aproximam e, com elas, seu tema, tão atual e presente em nossa prática cotidiana em instituição e nos consultórios, “Loucuras e Amores na Psicanálise”. Vimos construindo há cerca de quatro anos a especificidade da clínica orientada pela psicanálise quando num serviço de oncologia pediátrica. Como tratar loucuras e amores que surgem da parte dos pacientes, de seus pais e da equipe que os assiste quando estes se encontram confrontados com o real de uma doença, por vezes intratável, e que requer da equipe assistente uma docilidade para manejar e lidar com algo que não consta em nenhum protocolo da medicina oncológica?
Lacan nos indica uma direção ao chamar a atenção para a dimensão transferencial presente na clínica:

“Na era científica, o médico encontra-se em uma dupla posição: por um lado ele lida com um investimento energético do qual não suspeita o poder se não o lhe explicamos, por outro lado ele deve colocar este investimento entre parênteses em razão mesma dos poderes dos quais dispõe” (LACAN, 2001, p.14).

A transferência surge, neste contexto, como condição da possibilidade de mediação. Se acolhida e manejada, dá lugar a uma travessia menos angustiada de uma experiência que é, certamente, bastante dura. Dar ao paciente oncológico infanto-juvenil e a seus pais e/ou responsáveis a possibilidade de serem escutados e tirarem consequências desta escuta para o seu cuidado parece qualificar esta experiência, tenha ela o desfecho que tiver. Para isso, faz-se necessário destacar alguns pontos que nos parecem fundamentais:

1 – A supervisão como espaço onde podemos falar daquilo que, para o clínico do psíquico, surge como excesso e que põe em risco a assimetria transferencial, fundamental para que possamos orientar nossas intervenções pela palavra do doente. Como aponta Malengrau: “Levar a sério o que ele [o paciente] diz é convidá-lo a dar a sua carta, é referir o que ele diz a um saber particular, a um saber que valeria como antídoto às respostas prontas que lhe são impostas pela civilização” (1995, p. 89). Esta recomendação é especialmente importante em um hospital especializado, onde o discurso médico tende a ir na contramão de qualquer índice da particularidade subjetiva.

2 – A análise do praticante, onde ele possa escapar aos embates imaginários oriundos do mal estar que a prática cotidiana com pacientes potencialmente terminais pode suscitar. Tal mal estar tende a se manifestar sob a forma do narcisismo das pequenas diferenças e está aí franqueada toda uma via de segregação e rivalidade que só tende a prejudicar o trabalho em equipe e intersetorial.

3 – Acolher as mediações particulares de cada caso, tendo por referência a função do desejo. Romildo do Rêgo Barros (2014), em palestra proferida no INCA, afirma ser uma importante direção de trabalho com esses pacientes a de favorecer a mediação particular de cada caso. Destaca a temporalidade específica do trabalho com o paciente terminal e considera que cabe ao clínico “trocar em miúdos” as palavras do paciente, dando lugar ao desejo em contraponto à angústia, tão presente nesta clínica. Assim o disse:

“Contra a morte nós não dispomos de milagres, mas dispomos – o que não é tão fácil assim – dessa arma extraordinária que é a função do desejo. O que é o desejo? É uma tentativa de reunir a libido, a satisfação, o tesão, o gozo, com a mediação. O desejo é aquilo de que a gente pode dispor contra a angústia” (BARROS, 2014, p. 90).

4 – Favorecer as invenções institucionais e a troca com outras instituições e saberes. Desta forma, deixamo-nos ensinar pelos pacientes a partir de suas escutas e percursos, sempre particulares, de vida ou de despedida, não sem amores e loucuras que vimos buscando tratar neste percurso.

* “Singularizar o Cuidado” é o nome de um Laboratório do CIEN-RIO, que opera numa instituição oncológica pediátrica desde agosto de 2013, composto por psicólogas, professoras, terapeutas ocupacionais, oncologistas pediátricas, intensivistas, auxiliar de serviços gerais, etc. Recentemente, a partir de uma intervenção no próprio CIEN-RIO, vimos repensando nossa nomeação e “Particularizar o Cuidado” parece mais adequado ao contexto em que trabalhamos.

 

Referências Bibliográficas
LACAN, J. O Lugar da Psicanálise na Medicina. Em: Opção Lacaniana nº 32, Dezembro, 2001.
MALENGREAU, P. Para uma Clínica dos Cuidados Paliativos. Em: Opção Lacaniana nº 15, Agosto, 1995.
BARROS, R. R. Redes e Laços: impasses e desafios. Em: Cadernos de Psicologia nº 2 – INCA – 2014.

Da segregação à invenção: a importância da precariedade*

Por Paula Legey

“O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

(BENJAMIN, 1985 [1940], p.224)


Em um texto chamado Racismo 2.0 (2014), Laurent escreve sobre o racismo do momento em que vivemos. Ele afirma que a questão do racismo em nossa época de mercados comuns reside não exatamente em um choque de civilizações, mas em um choque dos gozos, e ainda que “Esses gozos múltiplos fragmentam o laço social, daí a tentação de apelo a um Deus unificador” (2014). Laurent parece indicar que, quanto menos o simbólico cumpre o papel de unificar através da norma paterna, maior é o risco de soluções de unificação pela exclusão do gozo do Outro.

O racismo, nas palavras de Laurent, “reside na rejeição de um gozo inassimilável, domínio de uma barbárie possível” (2014); é um mecanismo em que, para que seja possível se afirmar como indivíduo ou mesmo como um grupo unificado, é preciso rejeitar o gozo do Outro. Mas como, sem o saudosismo da norma paterna compartilhada, é possível a invenção de estratégias de unificação que não pela segregação?

O artista Ícaro Lira** realiza um trabalho a partir das ruínas, dos pedaços e fragmentos do passado, sem muito lugar na história oficial. Em uma de suas exposições/projetos, Cidade Partida (2014), Ícaro realiza um paralelo do que ocorreu em Canudos com outros processos de segregação; processos cíclicos que não cessam de acontecer. Como afirma em entrevista para Paulo Miyada, “Cidade Partida é uma tentativa de aproximação entre a destruição de Canudos com a destruição-gentrificação que as cidades do Brasil passam hoje” (2014)

No trabalho que deu origem à exposição, Ícaro esteve em Canudos e outras cidades do sertão do nordeste, onde recolheu objetos e palavras, fotos e outros textos. Esses fragmentos, articulados também com outros objetos do presente, não menos em conexão com esses pedaços de história, deram origem a uma montagem que foi a exposição, “mais um livro aberto do que um trabalho acabado”, como define o artista na entrevista citada acima.

Arte e política se encontram ligadas de forma quase indissociável na criação de Ícaro. Esse trabalho nos permite ter acesso a um fazer que tece uma rede entre fragmentos que não se unificam, em que os limites que determinam onde começa e termina a obra são fluidos e sujeitos a redefinições. Esse fazer parece nos ensinar sobre as formas possíveis de criar algo que se sustente sem o todo da norma universal e sem o apelo à segregação como estratégia de unificação. Talvez possa ser uma forma de aproximação do conceito de sinthoma, em que uma solução singular faz laço ao mesmo tempo em que pode sustentar peças soltas, numa amarração não tão rígida, que mantém espaço para o imprevisível.

Esse texto só pode ser escrito a partir de uma conversação organizada pela Clínica Ato – Psicanálise em Movimento, formada por Adriana de la Peña, Natasha Berdichevsky e por mim. A conversação ocorreu no Museu da República em 16 de agosto de 2017. Participaram: Ícaro Lira, Natasha Berditchevsky, Mario de Souza Chagas e Marcus André Vieira. As ideias trazidas nesse debate suscitaram essas reflexões.

** Para conhecer um pouco do trabalho de Ícaro vale a pena conferir o site: http://mapa.pacodasartes.org.br/page.php?name=artistas&op=detalhe&id=460

 

Referências Bibliográficas

BENJAMIN, W. (1940). Teses sobre o conceito de história. Em: Obras Escolhidas I. São Paulo: Editora Brasiliense: 1985.

LAURENT, E. Racismo 2.0. Em: Lacan Cotidiano n. 371, de 18 de fevereiro de 2014. Disponível em <http://ampblog2006.blogspot.com.br/2014/02/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html> Acesso em outubro de 2017.

Entrevista de Ícaro Lira a Paulo Miyada (2014)  Disponível em <http://mapa.pacodasartes.org.br/page.php?name=artistas&op=detalhe&id=460>. Acesso em outubro de 2017.