Particularizar o cuidado*: uma direção de trabalho possível na pediatria oncológica superespecializada

Por Ana Beatriz Rocha Bernat

“Uma clínica de atendimento paliativo resta a inventar; uma clínica que leve em conta a assimetria necessária que existe entre o paciente e o profissional, uma clínica que não se contente em definir a boa distância entre o atendente e a cabeceira daquele a quem ele se dirige. Esta clínica poderia ser uma clínica da relação do paciente ao saber do profissional, e da relação do profissional ao saber do paciente. Talvez a este último poderíamos assim oferecer algo, com o qual fazer ainda, com a vida que lhe resta, uma história”
(MALENGREAU, 1995, p. 90).

 

As XXV Jornadas Clínicas se aproximam e, com elas, seu tema, tão atual e presente em nossa prática cotidiana em instituição e nos consultórios, “Loucuras e Amores na Psicanálise”. Vimos construindo há cerca de quatro anos a especificidade da clínica orientada pela psicanálise quando num serviço de oncologia pediátrica. Como tratar loucuras e amores que surgem da parte dos pacientes, de seus pais e da equipe que os assiste quando estes se encontram confrontados com o real de uma doença, por vezes intratável, e que requer da equipe assistente uma docilidade para manejar e lidar com algo que não consta em nenhum protocolo da medicina oncológica?
Lacan nos indica uma direção ao chamar a atenção para a dimensão transferencial presente na clínica:

“Na era científica, o médico encontra-se em uma dupla posição: por um lado ele lida com um investimento energético do qual não suspeita o poder se não o lhe explicamos, por outro lado ele deve colocar este investimento entre parênteses em razão mesma dos poderes dos quais dispõe” (LACAN, 2001, p.14).

A transferência surge, neste contexto, como condição da possibilidade de mediação. Se acolhida e manejada, dá lugar a uma travessia menos angustiada de uma experiência que é, certamente, bastante dura. Dar ao paciente oncológico infanto-juvenil e a seus pais e/ou responsáveis a possibilidade de serem escutados e tirarem consequências desta escuta para o seu cuidado parece qualificar esta experiência, tenha ela o desfecho que tiver. Para isso, faz-se necessário destacar alguns pontos que nos parecem fundamentais:

1 – A supervisão como espaço onde podemos falar daquilo que, para o clínico do psíquico, surge como excesso e que põe em risco a assimetria transferencial, fundamental para que possamos orientar nossas intervenções pela palavra do doente. Como aponta Malengrau: “Levar a sério o que ele [o paciente] diz é convidá-lo a dar a sua carta, é referir o que ele diz a um saber particular, a um saber que valeria como antídoto às respostas prontas que lhe são impostas pela civilização” (1995, p. 89). Esta recomendação é especialmente importante em um hospital especializado, onde o discurso médico tende a ir na contramão de qualquer índice da particularidade subjetiva.

2 – A análise do praticante, onde ele possa escapar aos embates imaginários oriundos do mal estar que a prática cotidiana com pacientes potencialmente terminais pode suscitar. Tal mal estar tende a se manifestar sob a forma do narcisismo das pequenas diferenças e está aí franqueada toda uma via de segregação e rivalidade que só tende a prejudicar o trabalho em equipe e intersetorial.

3 – Acolher as mediações particulares de cada caso, tendo por referência a função do desejo. Romildo do Rêgo Barros (2014), em palestra proferida no INCA, afirma ser uma importante direção de trabalho com esses pacientes a de favorecer a mediação particular de cada caso. Destaca a temporalidade específica do trabalho com o paciente terminal e considera que cabe ao clínico “trocar em miúdos” as palavras do paciente, dando lugar ao desejo em contraponto à angústia, tão presente nesta clínica. Assim o disse:

“Contra a morte nós não dispomos de milagres, mas dispomos – o que não é tão fácil assim – dessa arma extraordinária que é a função do desejo. O que é o desejo? É uma tentativa de reunir a libido, a satisfação, o tesão, o gozo, com a mediação. O desejo é aquilo de que a gente pode dispor contra a angústia” (BARROS, 2014, p. 90).

4 – Favorecer as invenções institucionais e a troca com outras instituições e saberes. Desta forma, deixamo-nos ensinar pelos pacientes a partir de suas escutas e percursos, sempre particulares, de vida ou de despedida, não sem amores e loucuras que vimos buscando tratar neste percurso.

* “Singularizar o Cuidado” é o nome de um Laboratório do CIEN-RIO, que opera numa instituição oncológica pediátrica desde agosto de 2013, composto por psicólogas, professoras, terapeutas ocupacionais, oncologistas pediátricas, intensivistas, auxiliar de serviços gerais, etc. Recentemente, a partir de uma intervenção no próprio CIEN-RIO, vimos repensando nossa nomeação e “Particularizar o Cuidado” parece mais adequado ao contexto em que trabalhamos.

 

Referências Bibliográficas
LACAN, J. O Lugar da Psicanálise na Medicina. Em: Opção Lacaniana nº 32, Dezembro, 2001.
MALENGREAU, P. Para uma Clínica dos Cuidados Paliativos. Em: Opção Lacaniana nº 15, Agosto, 1995.
BARROS, R. R. Redes e Laços: impasses e desafios. Em: Cadernos de Psicologia nº 2 – INCA – 2014.

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