Um brinde ao impossível

Por Andrea Vilanova

“Ser rodeado pela carne bela, curiosa, palpitante, sorridente é o bastante,
Passar entre eles, ou tocar todos eles, ou descansar meu braço mesmo bem de leve em torno ao ombro dele ou dela por um momento — o que significa isto, então?
Não exijo nenhum deleite maior que este — nado nele, como num mar.” (WHITMAN, 1881 [1885]).

 

Neste fragmento de Walt Whitman, em seu poema Eu Canto o Corpo Elétrico, recorta-se uma cena do filme do cineasta Marcelo Caetano.

Na noite da última sexta-feira, realizamos uma bela preparatória para nossas Jornadas, com a exibição do filme Corpo Elétrico, seguida de debate com a participação do diretor e com a presença de Marcus André Vieira e Paulo Vidal como debatedores, sob a coordenação de Andrea Reis.

A realização da preparatória deslizou como a cena do poema. Éramos uns entre os outros, rodeados pela presença palpitante daqueles que animaram o debate, do vigor do cineasta e da platéia atenta.

Um filme retrato de amores sem conflito, sem drama, surpreendendo o espectador e interrogando os analistas. Personagens simplesmente vivos e humanamente eloquentes em seu savoir-faire, a despeito do chão da fábrica, ou do peso dos dias.

Marcelo Caetano nos brindou com a realização do impossível, ainda que improvável, que faz da contingência do encontro a carne da vida.

Que assim prossigamos, aprendizes daquilo que a arte, ao anteceder a psicanálise, coloca no mundo: o ingovernável, matéria de que somos feitos.

 

Anúncios