Particularizar o cuidado*: uma direção de trabalho possível na pediatria oncológica superespecializada

Por Ana Beatriz Rocha Bernat

“Uma clínica de atendimento paliativo resta a inventar; uma clínica que leve em conta a assimetria necessária que existe entre o paciente e o profissional, uma clínica que não se contente em definir a boa distância entre o atendente e a cabeceira daquele a quem ele se dirige. Esta clínica poderia ser uma clínica da relação do paciente ao saber do profissional, e da relação do profissional ao saber do paciente. Talvez a este último poderíamos assim oferecer algo, com o qual fazer ainda, com a vida que lhe resta, uma história”
(MALENGREAU, 1995, p. 90).

 

As XXV Jornadas Clínicas se aproximam e, com elas, seu tema, tão atual e presente em nossa prática cotidiana em instituição e nos consultórios, “Loucuras e Amores na Psicanálise”. Vimos construindo há cerca de quatro anos a especificidade da clínica orientada pela psicanálise quando num serviço de oncologia pediátrica. Como tratar loucuras e amores que surgem da parte dos pacientes, de seus pais e da equipe que os assiste quando estes se encontram confrontados com o real de uma doença, por vezes intratável, e que requer da equipe assistente uma docilidade para manejar e lidar com algo que não consta em nenhum protocolo da medicina oncológica?
Lacan nos indica uma direção ao chamar a atenção para a dimensão transferencial presente na clínica:

“Na era científica, o médico encontra-se em uma dupla posição: por um lado ele lida com um investimento energético do qual não suspeita o poder se não o lhe explicamos, por outro lado ele deve colocar este investimento entre parênteses em razão mesma dos poderes dos quais dispõe” (LACAN, 2001, p.14).

A transferência surge, neste contexto, como condição da possibilidade de mediação. Se acolhida e manejada, dá lugar a uma travessia menos angustiada de uma experiência que é, certamente, bastante dura. Dar ao paciente oncológico infanto-juvenil e a seus pais e/ou responsáveis a possibilidade de serem escutados e tirarem consequências desta escuta para o seu cuidado parece qualificar esta experiência, tenha ela o desfecho que tiver. Para isso, faz-se necessário destacar alguns pontos que nos parecem fundamentais:

1 – A supervisão como espaço onde podemos falar daquilo que, para o clínico do psíquico, surge como excesso e que põe em risco a assimetria transferencial, fundamental para que possamos orientar nossas intervenções pela palavra do doente. Como aponta Malengrau: “Levar a sério o que ele [o paciente] diz é convidá-lo a dar a sua carta, é referir o que ele diz a um saber particular, a um saber que valeria como antídoto às respostas prontas que lhe são impostas pela civilização” (1995, p. 89). Esta recomendação é especialmente importante em um hospital especializado, onde o discurso médico tende a ir na contramão de qualquer índice da particularidade subjetiva.

2 – A análise do praticante, onde ele possa escapar aos embates imaginários oriundos do mal estar que a prática cotidiana com pacientes potencialmente terminais pode suscitar. Tal mal estar tende a se manifestar sob a forma do narcisismo das pequenas diferenças e está aí franqueada toda uma via de segregação e rivalidade que só tende a prejudicar o trabalho em equipe e intersetorial.

3 – Acolher as mediações particulares de cada caso, tendo por referência a função do desejo. Romildo do Rêgo Barros (2014), em palestra proferida no INCA, afirma ser uma importante direção de trabalho com esses pacientes a de favorecer a mediação particular de cada caso. Destaca a temporalidade específica do trabalho com o paciente terminal e considera que cabe ao clínico “trocar em miúdos” as palavras do paciente, dando lugar ao desejo em contraponto à angústia, tão presente nesta clínica. Assim o disse:

“Contra a morte nós não dispomos de milagres, mas dispomos – o que não é tão fácil assim – dessa arma extraordinária que é a função do desejo. O que é o desejo? É uma tentativa de reunir a libido, a satisfação, o tesão, o gozo, com a mediação. O desejo é aquilo de que a gente pode dispor contra a angústia” (BARROS, 2014, p. 90).

4 – Favorecer as invenções institucionais e a troca com outras instituições e saberes. Desta forma, deixamo-nos ensinar pelos pacientes a partir de suas escutas e percursos, sempre particulares, de vida ou de despedida, não sem amores e loucuras que vimos buscando tratar neste percurso.

* “Singularizar o Cuidado” é o nome de um Laboratório do CIEN-RIO, que opera numa instituição oncológica pediátrica desde agosto de 2013, composto por psicólogas, professoras, terapeutas ocupacionais, oncologistas pediátricas, intensivistas, auxiliar de serviços gerais, etc. Recentemente, a partir de uma intervenção no próprio CIEN-RIO, vimos repensando nossa nomeação e “Particularizar o Cuidado” parece mais adequado ao contexto em que trabalhamos.

 

Referências Bibliográficas
LACAN, J. O Lugar da Psicanálise na Medicina. Em: Opção Lacaniana nº 32, Dezembro, 2001.
MALENGREAU, P. Para uma Clínica dos Cuidados Paliativos. Em: Opção Lacaniana nº 15, Agosto, 1995.
BARROS, R. R. Redes e Laços: impasses e desafios. Em: Cadernos de Psicologia nº 2 – INCA – 2014.

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Da segregação à invenção: a importância da precariedade*

Por Paula Legey

“O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

(BENJAMIN, 1985 [1940], p.224)


Em um texto chamado Racismo 2.0 (2014), Laurent escreve sobre o racismo do momento em que vivemos. Ele afirma que a questão do racismo em nossa época de mercados comuns reside não exatamente em um choque de civilizações, mas em um choque dos gozos, e ainda que “Esses gozos múltiplos fragmentam o laço social, daí a tentação de apelo a um Deus unificador” (2014). Laurent parece indicar que, quanto menos o simbólico cumpre o papel de unificar através da norma paterna, maior é o risco de soluções de unificação pela exclusão do gozo do Outro.

O racismo, nas palavras de Laurent, “reside na rejeição de um gozo inassimilável, domínio de uma barbárie possível” (2014); é um mecanismo em que, para que seja possível se afirmar como indivíduo ou mesmo como um grupo unificado, é preciso rejeitar o gozo do Outro. Mas como, sem o saudosismo da norma paterna compartilhada, é possível a invenção de estratégias de unificação que não pela segregação?

O artista Ícaro Lira** realiza um trabalho a partir das ruínas, dos pedaços e fragmentos do passado, sem muito lugar na história oficial. Em uma de suas exposições/projetos, Cidade Partida (2014), Ícaro realiza um paralelo do que ocorreu em Canudos com outros processos de segregação; processos cíclicos que não cessam de acontecer. Como afirma em entrevista para Paulo Miyada, “Cidade Partida é uma tentativa de aproximação entre a destruição de Canudos com a destruição-gentrificação que as cidades do Brasil passam hoje” (2014)

No trabalho que deu origem à exposição, Ícaro esteve em Canudos e outras cidades do sertão do nordeste, onde recolheu objetos e palavras, fotos e outros textos. Esses fragmentos, articulados também com outros objetos do presente, não menos em conexão com esses pedaços de história, deram origem a uma montagem que foi a exposição, “mais um livro aberto do que um trabalho acabado”, como define o artista na entrevista citada acima.

Arte e política se encontram ligadas de forma quase indissociável na criação de Ícaro. Esse trabalho nos permite ter acesso a um fazer que tece uma rede entre fragmentos que não se unificam, em que os limites que determinam onde começa e termina a obra são fluidos e sujeitos a redefinições. Esse fazer parece nos ensinar sobre as formas possíveis de criar algo que se sustente sem o todo da norma universal e sem o apelo à segregação como estratégia de unificação. Talvez possa ser uma forma de aproximação do conceito de sinthoma, em que uma solução singular faz laço ao mesmo tempo em que pode sustentar peças soltas, numa amarração não tão rígida, que mantém espaço para o imprevisível.

Esse texto só pode ser escrito a partir de uma conversação organizada pela Clínica Ato – Psicanálise em Movimento, formada por Adriana de la Peña, Natasha Berdichevsky e por mim. A conversação ocorreu no Museu da República em 16 de agosto de 2017. Participaram: Ícaro Lira, Natasha Berditchevsky, Mario de Souza Chagas e Marcus André Vieira. As ideias trazidas nesse debate suscitaram essas reflexões.

** Para conhecer um pouco do trabalho de Ícaro vale a pena conferir o site: http://mapa.pacodasartes.org.br/page.php?name=artistas&op=detalhe&id=460

 

Referências Bibliográficas

BENJAMIN, W. (1940). Teses sobre o conceito de história. Em: Obras Escolhidas I. São Paulo: Editora Brasiliense: 1985.

LAURENT, E. Racismo 2.0. Em: Lacan Cotidiano n. 371, de 18 de fevereiro de 2014. Disponível em <http://ampblog2006.blogspot.com.br/2014/02/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html> Acesso em outubro de 2017.

Entrevista de Ícaro Lira a Paulo Miyada (2014)  Disponível em <http://mapa.pacodasartes.org.br/page.php?name=artistas&op=detalhe&id=460>. Acesso em outubro de 2017.

Os oásis nossos de cada dia

Por Maricia Ciscato

Gueto de Varsóvia, ano de 1941, cenário de horror. Corpos pelas ruas e vielas; mortos, moribundos, doentes, famintos, apáticos, perdidos. A peste e o nada. Bocas semi-abertas. Olhares vazios. Alguns gritos, quem sabe se de dor, de fome ou de desespero. Em meio ao deserto de vida, um burburinho no canto de uma das ruas. Algumas crianças, muito magras, movem-se e conversam; um adulto – líder judeu no gueto – ensaia com elas uma peça de teatro.  

Essa cena, eu a imaginei a partir do relato que ouvi de um historiador no filme Shoah, de Claude Lanzmann. Neste filme, a genialidade de Lanzmann nos faz entrar em contato com o horror do processo que levou ao extermínio calculado e metódico de dois terços do povo judeu da Europa. Para isso, Lanzmann impede de nos conectarmos com o drama, impede que nos identifiquemos com o povo exterminado, impede qualquer tipo de catarse. Deixa-nos deslocalizados, utilizando-se apenas de testemunhos, de silêncios, de traduções, de línguas impossíveis, de restos dos campos, de trilhos, do vazio de imagens irrepresentáveis.

Não há qualquer cena dos corpos do gueto em questão, da morte espalhada. É preciso que as palavras do historiador nos atravessem e nos levem a produzir a cena internamente. E ali, no canto das ruas mortas, no canto do deserto que toma conta de nosso corpo durante o filme, ali no canto, estão as crianças, brincando, ensaiando uma peça de teatro. Um oásis, talvez dissesse Hannah Arendt (1998).

Desertos e oásis são territórios nossos, humanos. Somos capazes de produzir e de nos habituar com os mais extensos desertos, inclusive o político. Arendt nos lembra que o maior desafio não é o de aprender a viver no deserto – como quer a psicologia moderna –, mas o de produzir e manter oásis em meio ao deserto, não como espaços de “descompressão”, mas, pelo contrário, como “fontes vivas que nos capacitam a viver no deserto sem nos reconciliarmos com ele” (1998, p. 180, grifo nosso). Os oásis são os territórios que nos capacitam a viver no deserto sem nos adaptarmos a ele, sem totalizá-lo como norma. Os oásis são os cantos das ruas que pulsam, que invertem a lógica mortífera segregacionista e inventam a vida lá onde haveria apenas indiferença, planificação, normalização, contabilização, totalização.

Oásis podem ser produzidos por crianças brincando na esquina de um gueto; podem ser produzidos por artistas, escritores e poetas (atenção para o livro “Para que poetas em tempos de terrorismos?”, de Alberto Pucheu); por alunos em ocupações; por hortelões em meio ao concreto cinza; por ativistas em meio ao caos ou ao silêncio; por moradores em meio à violência; por analistas nas mais diversas atuações pelas cidades. Cada um a seu modo, furando o deserto político. Oásis podem ser produzidos até mesmo em meio à polícia militar do Rio de Janeiro.

Eis o ponto em que me encontro, como analista. Aqui, agradeço a Paulo Vidal pela delicadeza de me fazer avançar ao marcar que, para além dos oásis, há que se construir também os trajetos, que vão de um a outro e que cortam o deserto, sob o risco de, ao manter os oásis isolados, “guetificá-los”. 

 

Referência:

ARENDT, H. De deserto e de Oásis. Em: O que é Política? – Fragmentos das Obras Póstumas Compilados por Úrsula Ludz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998, p. 177 a 183.

 

Corpos na pólis

Por Renata Estrella

“Se meu filho um dia for professor, ele vai ensinar a minha história”

(fala de um aluno que participou das ocupações das escolas em SP, 2015)

 
Considerando-se que o mundo se vê hoje submetido à lógica do mercado, atual regulador das trocas sociais, parto da premissa de que o mercado ocuparia o lugar do Outro na atualidade, como Marcus André Vieira tem trabalhado em seu Seminário, A psicanálise do fim do mundo. O Outro do mercado aparece de forma onipresente, fugidia e que, ao mesmo tempo, dita escolhas – tudo transformado em consumo – à maneira de um imperativo categórico¹.

Neste estado da arte, tão fixados que parecemos estar em identificações, talvez como uma defesa, a forma de ciframento de gozo parece ser a da segregação, como Marie-Hélène Brousse trabalhou em 2002 em Seminário Internacional promovido pela EBP/SP. A segregação aparece em processos de auto-segregação, como a ideia de lugar de fala, por exemplo, ou nas propostas cada vez mais claras de extermínio do outro – terrorista, diferente, coxinha, petista -, demonstrando acirrada negação da alteridade em nossa cultura.

Nesse sentido, interessa ao psicanalista o movimento em curso no social, processos que nos interpretam ao trazerem problemas, soluções, invenções, novidades que podem contribuir à permanente reedição da psicanálise. Para trazer estas breves questões, parto de minha experiência em apoio às ocupações no Rio de Janeiro em março de 2016, de algumas entrevistas com os estudantes ocupas, como passaram a ser carinhosamente chamados – entre elas, a entrevista realizada por Cristina Frederico e Paula Legey, publicada na Latusa, n.21 – e do filme de Carlos Pronzato, Acabou a paz! Isto aqui vai virar o Chile! Escolas ocupadas em São Paulo – de onde vem a epígrafe deste texto.

Sobretudo a partir dos anos 2000, vemos insurgir nas ruas e espaços públicos das grandes cidades diferentes movimentos populares de ocupação inaugurados pelo famoso Occupy Wall StreetO que parece é que são movimentos de resistência que podem significar cortes no dispositivo capitalista por funcionarem de forma a impedir o controle, a padronização e a transformação dessas práticas em objetos de consumo. Assim, são práticas também fugidias, começam e terminam de forma repentina, ocupando coletivamente as ruas ou espaços públicos com o próprio corpo, às vezes com um mote, mas nem sempre e, em geral, após o início, escutamos dos ocupas muito mais que o motivo disparador daquela ocupação, como disse uma estudante no filme de Pronzato: “hoje se aprende mais política nas ruas”.

No caso dos estudantes secundaristas no Brasil, as ocupações se deram por meio das artes – performances, projeções, pinturas, shows, peças – e, ainda, de uma auto-organização nas escolas que compreendeu a estrutura física e de equipamentos, além da organização de aulas, debates, eventos, em um movimento recíproco de dentro para fora e de fora para dentro”, como disse uma estudante à Latusa, o que cria um fora e um dentro, ou seja, um rearranjo do espaço social. Cabe, então, perguntar se as ocupações produziriam uma espécie de negatividade de objeto no corpo social, criando espaços vazios, representacionais, bordas, abrindo espaço / tempo no fluxo de pessoas, de gadgets, de sentidos, mexendo com a linguagem estabelecida, como se fizessem um corte ou furo no Outro do mercado.

Nesse sentido, impressiona a crítica da grande mídia brasileira às ocupações, como se estas interrompessem o bom andamento do mundo tal como ele é, daquilo que está estabelecido como possível, como se o mundo e a cultura, a ficção de mundo que criamos, fossem desde sempre idênticos, ignorando que a cultura é construída a partir dos indivíduos. No caso das ocupações das escolas secundaristas, a questão é mais complexa, no entanto. No recorte que faço aqui, tomou-se a ideia estudantes aprendem em escolas como fato, mesmo toda a sociedade brasileira sabendo há décadas do sucateamento das escolas públicas e, ainda, mesmo após as falas dos estudantes e de seus pais de que os alunos que fizeram a ocupação estavam aprendendo muito mais após terem ocupado, talvez por se sentirem mais parte das escolas, também quando estas retornaram ao funcionamento instituído.

Assim, seria legado das ocupações uma mudança nesses alunos, em sua relação com a escola e com a sociedade? A linguagem, o simbólico, desnaturaliza o corpo do organismo que, então, incorpora a cultura. Porém, em tempos que a crise da tradição parece não garantir um lugar no Outro, pergunto se a prática das ocupações a partir dos espaços vazios criados e das possibilidades de deslocamentos aí engendradas lida com essa força estranha que escapa à formatação e insiste de forma diferente da segregação, à maneira da serpartição, neologismo que fez Lacan, pinçado por Miller em 2005, ao tratar de uma separação possível sem a intervenção do Outro. Ou, nas palavras da estudante à Latusa, ao ser perguntada sobre o que levaria da experiência: “eu tive a noção do meu corpo”.

 

¹ Para um aprofundamento desta proposta: Liégard, F. Psychanalyse do lien social et sociologie: un rencontre à élaborer. L’exemple de la délinquance juvénile contemporaine. In : Journal des Anthropologues. 116-117, 2009; Alemán, Jorge. En la Frontera – sujeto y capitalismo. El mal estar en el presente néolibéral. Conversaciones con María Victoria Gimbel. Barcelona, Gedisa Editorial, 2014.

 

Referências Bibliográficas
Brousse, M.H. O Inconsciente é a política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2003.
Latusa. Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise Seção Rio, n.21, agosto de 2016.
Miller, J.A. “Introdução à leitura do seminário 10 da Angústia de Jacques Lacan”. Em: Opção Lacaniana, n° 43. São Paulo: Eolia, maio de 2005.

O amor de transferência em resposta à loucura da norma: uma experiência de psicanálise em extensão

Por Andrea Villanova

A leitura a que somos convocados a partir de nossas inserções institucionais, onde nos aplicamos como analistas, opera sobre nós mesmos efeitos de orientação. Como destaca Laurent em a Sociedade do Sintoma, trata-se de elevarmos o sintoma ao estatuto de bússola para nossa orientação. Vale lembrar que o sintoma freudiano, introduzido na cultura como signo do que não se adequa, do que resiste à normatização, encontra em Lacan a formalização que nos oferece desdobramentos cruciais para a leitura de seus elementos constitutivos: saber e gozo. Tomar o sintoma como instrumento vai além da experiência da condução de análises individuais. O modo como cada sujeito vive o sintoma é singular, mas sua estrutura pode ser amplificada para a leitura de fenômenos da cultura.

É a partir da abordagem do sintoma que venho balizando uma prática de supervisão com residentes médicos. Diante da loucura da normatização e da adicção preconizadas pelo mestre contemporâneo, a posição do médico vem sofrendo transformações, como Lacan já nos advertia nos anos 60. O que está em jogo na posição do clínico? O que ela suscita? Como pensar o sintoma nesta perspectiva? Promovendo um curto-circuito na demanda de “supervisão em psicoterapia”, venho promovendo um trabalho orientado pela psicanálise, dirigido à abordagem dos impasses na prática clínica dos residentes, apostando na leitura de sua posição, de cada um deles, frente ao manejo dos casos na clínica psiquiátrica. O resultado tem sido uma abertura entusiasmada ao estudo de Freud e Lacan como possibilidade de retomada dos fundamentos da própria clínica, negligenciados na era dos DSMs. Cabe ressaltar o efeito de surpresa do encontro, a descoberta do amor de transferência como instrumento e não como resíduo a ser eliminado.

Referências:
Lacan, J. Psicoanálisis y medicina. Buenos Aires: Manantial, 1985.

Laurent, E. A sociedade do sintoma – a psicanálise hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.

Que Legado!!!

Por Fátima Pinheiro

Esse texto é um pequeno testemunho de uma experiência de curadoria, minha e de Flávia Trocoli*, realizada com o propósito de criar um laço entre a arte, a política e a psicanálise na cidade, em uma ocupação denominada Que Legado, sob coordenação de Natasha Coberlino e Breno Sanches, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro durante três semanas, no período de 23.03 a 09.04 deste ano, no Castelinho do Flamengo. Que Legado é uma ocupação cultural para diálogos múltiplos no mapa do Rio de Janeiro e que não só movimentou a cidade durante quase um mês, como também fez soprar uma “lufada de ar” quebrando certa estagnação que pairava no ar  da cidade frente ao  desmonte de políticas públicas para a cultura, educação, saúde e à falta de representatividade da população nas ações políticas e culturais do estado e do município do Rio de Janeiro. Esta ocupação desenvolveu intensas e importantes atividades de exposições, cinema, dança, teatro, música, ciclos de psicanálise, literatura, performance, curso sobre o histórico de resistência das favelas no RJ, debates sobre micropolítica, orçamento público e mídias alternativas, com a atuação de mais de duzentos artistas/pensadores/articuladores/produtores/professores.

Convidamos para o Ciclo sobre política, arte e psicanálise, sob nossa curadoria, realizado durante três semanas consecutivas, dois artistas e uma psicanalista: Xico Chaves [artista visual e poeta], Alberto Pucheu [poeta] e Ana Cristina Figueiredo [psicanalista], para que fizessem uma leitura singular da frase: “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu” (FREUD, [1913]1996, p. 160), colocando em jogo um “saber fazer” diante do impossível frente às três modalidades propostas por Freud: psicanalisar, educar e governar. Esta frase retomada por Freud do Fausto de Goethe, em Totem e Tabu, remete diretamente à apropriação de um legado. Trata-se da transmissão de uma herança. Esta frase é recolhida de um livro que versa sobre um pai assassinado, cujo resultado é a própria instauração da cultura.

Lacan (1969) sustenta que a função do pai na constituição de um sujeito implica no irredutível de uma transmissão. Diante disso, interrogamos: Como conquistar isso que herdamos do Outro? Como torná-lo um pouco mais “nosso”? Como articular o campo da psicanálise com o da política? Perguntas que, mais do que apontar saídas, criaram portas de entrada para novas iniciativas e ideias. Acreditamos que a arte pode ser o artifício que possibilita enlaçar campos tão heterogêneos. Há um “fazer aí” que pode participar da invenção, produzir sinthoma, permitindo fabricar uma escrita do nó. Essa é a aposta que endereçamos à cidade, àqueles que a habitam. E o poema de Alberto Pucheu é a agulha fina que em um leve movimento de “vai e vem” desenha o laço.

apesar de tudo, o impossível
apesar de tudo o que querem, apesar
de tudo já ter sido dito, é preciso dizer
que tudo ainda está por se dizer,
que estou aqui, mais uma vez, para dizer
que ainda resta dizer o que quer que possa
ser dito, que ainda resta o que dizer,
porque querem que nada mais reste
a dizer, querem silenciar o que há
para ser dito, como quem silencia
toda e qualquer possibilidade, toda
e qualquer impossibilidade que afete
o possível, estou aqui, então, dizendo
que ainda há o que dizer
mesmo que isso não seja dito
com qualquer esperança, digo, mesmo
sem qualquer esperança, mesmo sem medo,
digo mesmo na vulnerabilidade atiçada
que nos constitui, na vulnerabilidade
que, apesar de tudo, nos desconcerta
o medo, levando-nos, apesar de tudo,
a irmos, arrepiados, aonde não iríamos,
que nos dificulta o fato de ainda termos
o que dizer, mas, ao mesmo tempo,
o instiga, instiga o que resta a dizer,
instiga a possibilidade do impossível
a dizer, que, quando dito, afeta,
imediatamente, transformando-nos,
o nosso real, que é esse haver, ainda,
o que dizer, esse haver, ainda, tudo
a dizer, esse haver um resto a dizer
que se confunde com o tudo a dizer,
com o possível a dizer, com o impossível
a dizer a tornar o impossível possível,
que nos faz estarmos aqui juntos,
que nos faz não termos desistido
de dizer, que nos faz dizer
o que ainda pode ser dito, o que ainda,
apesar de tudo, há para ser dito,
o que, apesar de tudo, resta a dizer,
a dizer, apesar de tudo, o impossível
a tornar, apesar de tudo, o possível
sempre e a cada vez e de novo possível.

 

* Psicanalista, professora de Teoria Literária da UFRJ e participante da Oficina “Práticas da Letra”/ ICP/RJ.

 

Referências:

Freud, S. (1974). Totem e Tabu. In S. Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. 13, pp 11-191). Rio de Janeiro: Imago. (originalmente publicado em 1913).

Lacan, J. (2003). Nota sobre a Criança. In J. Lacan. Outros Escritos (V. Ribeiro, trad., pp. 369-370). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho originalmente publicado em 1969).

Pólis de poli-amores

Por Clarisse Boechat

Parto aqui de uma proposição de Marie Hélène Brousse (2002, p. 57), que aponta o analista como um leitor privilegiado da cidade: “É por isso que eu digo que a posição do analista é central na pólis. É como um observatório, um desfile dos modos de gozo e de vida”. Se o analista não se subtrai de sua incidência na pólis, a especificidade de sua observação, que o difere de um sociólogo ou de um antropólogo, consiste em tomar o texto inconsciente como discurso do Outro e extrair cruzamentos significantes que produzem vida para um sujeito e sustentam a subjetividade de uma época.

E o Rio? Que leitura fazer da cidade que nos é contemporânea? Na minha experiência de trabalho com as ruas, seja pelo Consultório na Rua ou pelo ateliê “Escreve-se história”, tenho a impressão de me deparar frequentemente com certa labilidade dos laços que sucessivamente se engancham e desconectam do Outro, em soluções refeitas a cada vez. Isso parece se aproximar da intermitência do laço que se verifica nas psicoses ordinárias, como discutido nas Conversações sobre os “inclassificáveis da clínica psicanalítica”, em que se perfilam organizações sintomáticas que, por vezes, estabelecem ligações fluidas com o Outro. São sujeitos que prescindem das normas e da rotina como marcação significante, passam ao largo das convenções sociais, mas inventam, a cada vez, novos recursos, grampos que os conectam provisoriamente ao Outro, sem a estabilidade de um sintoma.

Um adolescente me disse: “Vou te mandar a letra: na rua a gente não namora, aqui é papo de marido e mulher”. Essa forma curiosa de nomear parcerias amorosas, muitas vezes fugazes, parece demonstrar como, ao prescindir das coordenadas do Nome-do-pai, ainda assim, alguns sujeitos se servem dos semblantes da norma, à sua maneira. A nomeação dos laços que recorre ao “lastro” da família se apresenta não apenas em relação às parcerias amorosas, mas também nas mulheres e homens nomeados como “mães” e “pais” na rua. Mesmo que as bricolagens desses poli-amores ou “neoparentalidades” se enodem e des(enodem) na pulsação da intermitência, não deixam de ser modalidades de amarração como recurso à deriva, ficções sem fixidez. Estaria em jogo aí um apelo aos semblantes como efeito do declínio da norma fálica? As ruas da cidade são labirintos por onde o extravio do gozo circula, mas também se enlaça em arranjos muito singulares, e a presença da psicanálise testemunha, dessas novas derivas, impasses e invenções na cidade do nosso tempo, pólis de poli-amores.

 

Referências:

BROUSSE, M-H. O inconsciente é a política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2002.

MILLER, J-A. Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica: A Conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998.