Argumento e eixos temáticos

As Loucuras e os Amores na psicanálise delimitam o espaço de trabalho proposto para as XXV Jornadas Clínicas da EBP Rio e do ICP RJ em 2017.

O título surge como um desdobramento/interpretação do tema escolhido para o próximo Congresso da AMP e inclui toda e qualquer loucura (neuroses, psicoses, psicoses ordinárias, autismo e outras) e sua relação com o amor no campo da psicanálise.

A afirmação de Jacques Lacan escrita em 1978, “todo mundo é louco, quer dizer delirante”, tomada por Jacques-Alain Miller como uma condensação do ultimíssimo ensino lacaniano, será a chave de leitura que retroagirá sobre as estruturas clínicas, ordenadas segundo a presença ou ausência do Nome-do-Pai.

O objeto a e a pluralização do Nome-do-Pai abriram a possibilidade de pensar o sinthoma, suportado no axioma da loucura generalizada. A partir daí, todo sujeito se vê levado a inventar algo que mantenha unidos os três registros: real, simbólico e imaginário, estabelecidos por J. Lacan.

A conjunção de loucuras com os amores nos coloca na trilha da transferência quando se trata da experiência analítica, permitindo interrogar como esta se apresenta hoje, verificando quais são as possibilidades e as dificuldades que o psicanalista enfrenta. Por outro lado, poderemos também situar e questionar as formas sintomáticas que enlaçam ambos os fenômenos.

Caberá a todos aqueles que se sintam concernidos pelo tema apresentarem suas contribuições, fazendo uma báscula que vai do plural ao singular, tal qual nos aconselhou S. Freud, retomando cada caso do zero.

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EIXOS TEMÁTICOS

  • 1. Parcerias: O que há?

Entre loucuras e amores, situamos uma hiância que permitirá investigar e elaborar a maneira singular como o sujeito realiza essa conjunção. Podemos encontrar ali os amores loucos, os loucos de amor, as parcerias loucas e violentas, o amor devastação, os amores virtuais, os celibatários, o amor morto da psicose, entre outros possíveis. Nesse sentido, consideramos que elas são sintomáticas, apresentando uma conjunção/disjunção entre amor e gozo que resulta no modo de cada um viver a pulsão. É nesta via que o amor de transferência caminha, abrindo a possibilidade da construção de uma outra parceria sintomática, onde um novo amor poderá ser descortinado.

  • 2. A transferência: entre o amor e o saber

S. Freud investiga a loucura e é surpreendido pelo amor, irrupção que, na vertente do sujeito do inconsciente, produz efeitos na experiência clínica, tornando-se condição de possibilidade e, paradoxalmente, resistência ao trabalho analítico. J. Lacan, por sua vez, lança uma luz ao fenômeno da transferência, ao distinguir seus diferentes registros: imaginário, simbólico e real. Faz uma análise deste conceito a partir do saber e propõe o sujeito suposto saber como seu pivô. J. A. Miller, em sua conferência Uma fantasia, retomando o último ensino de Lacan, aponta para a inversão desse paradigma: a transferência passa a ser o pivô do sujeito suposto saber. Segundo ele, o que faz existir o inconsciente como saber é o amor. Nessa direção, interessa-nos saber como se manifesta o amor transferencial no século XXI e o que pode um analista extrair de cada caso.

  • 3. Sobre o uso do diagnóstico: da classificação à singularidade

Afirmar que “todo mundo é louco, quer dizer delirante” pode nos levar a considerar apressadamente que podemos dispensar o diagnóstico de estrutura. Seria um engano irmos nessa direção? Propomos examinar como o analista se serve das articulações que se desprendem da loucura generalizada no seu trabalho do dia a dia, do caso a caso. Sabemos que as neuroses e psicoses foram estruturadas segundo a presença/ausência do Nome-do-Pai e relidas a partir de sua pluralização, o que possibilitou a construção de uma topologia dos nós e o surgimento do sinthoma, como o elo que mantém unidos os registros: real, simbólico e imaginário. Propomos que os analistas digam sobre os impasses que enfrentam na relação dessas elaborações lacanianas.

  • 4. Violência e amor

Será que a violência pode ser considerada como o extremo do amor ou da loucura, ou até mesmo o ponto de ligação entre as duas dimensões, onde o amor enlouquece, por exemplo, ou devemos pensá-la como passagem ao ato, que rompe tanto com a disciplina do amor quanto com a lógica da loucura?

É verdade que a violência não é unívoca: pode ter sentidos e causas diversas, mas também é verdade que ela supõe sempre uma ruptura da palavra. É neste lugar que ela encontra a psicanálise. O aumento da violência no mundo, em particular em suas manifestações mais bizarras, como o infanticídio, interpela diretamente os psicanalistas.