Desatino! Extra – Boletim das XXV Jornadas

Caros colegas,

Convidamos todos os inscritos nas XXV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ a pegarem gratuitamente uma cópia da impressão dos quatro casos que discutiremos na Conversação clínica que ocorrerá nas Jornadas. As cópias estarão disponíveis a partir desta sexta-feira, 20 de outubro, na Seção Rio.  

Sugerimos fortemente a todos que façam uma leitura prévia dos casos. No dia da conversação não procederemos à sua leitura integral, mas apenas a uma breve retomada de seus principais pontos destacados pelos autores nos debates preparatórios à conversação.  

Tomamos as indicações de Jacques-Alain Miller como orientação para a conversação: “Se confiamos na cadeia de significantes, vários participam do mesmo. Pelo menos é a ficção da conversação: produzir — não uma enunciação coletiva — senão uma associação livre coletiva, da qual esperamos um certo efeito de saber.”

Nossa aposta é de que essa conversação seja mais uma ocasião para avançarmos na pesquisa clínica que marca o ICP-RJ.

Tatiane Grova – Coordenação de Núcleos do ICP-RJ
Paula Borsoi – Diretora do ICP-RJ

1 MILLER, J.-A et alli. La pareja e el amor: conversaciones clinicas com Jacques Alain-Miller em Barcelona. Buenos Aires: Paidós, 2005.

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Letras, Amores e Dissabores

Por Isabel Lins

O que une a literatura à psicanálise é a letra. No meio desse caminho está não a pedra… mas, o Amor. As cartas de amor! Letras.

O amor faz suplência a uma relação que não existe: a relação sexual. Mas são, justamente, a letra, a carta, a escrita, que podem suspender o real dessa não existência. É o amor – objeto desses endereçamentos, que fazendo suplência ao real, convoca aquele em todas suas variantes, como variaram os títulos do filme que mencionarei a seguir. As declinações do amor são infindáveis, inesgotáveis, há sempre presente um… Mais… Ainda. O amor não para de demandar – é a própria demanda. Joyce, na ausência de sua Nora, assim se queixava: “Amor, amor, amor, por que me deixaste tão só?” (Dedicatória de Joyce a Nora no livro de poesias “Música de Câmera”, Primeiro livro publicado pelo autor, 1907).

Lacan nos adverte em Le Savoir du psychanlyte, Sem. 1971-72. (Publication hors commerce. Document interne à l’Association Freudienne Internationale et destiné à ses membres, sans date, page 56.) que “O melhor que há nesse impulso que se chama amor é a carta, a letra que pode tomar formas estranhas” (Idem p. 57).

“Amar foi minha ruína”, filme rodado em 1945, teve a direção de John Stahl, estrelado por Gene Tierney – que ganhou o Oscar de melhor atriz -, Cornel Wilde, Vincent Price e Jeanne Crain, entre outros. Interessante notar como seu título, no original, “Leave her to heaven”, foi sendo traduzido nas diversas línguas, conforme o país onde era exibido: “Amar foi minha perdição” (Portugal), “Amar foi minha ruína” (Brasil), “Peché mortel” (França), “Femmina Folle” (Itália), etc. Títulos esses não conforme ao original, mas todos guardando referência ao amor, seja este, como no caso, um amor absolutamente possessivo, exclusivo, narcisista. O amor é plural, conjuga-se em todas as pessoas, expande-se por entre mares e oceanos, ou, como canta Rita Lee na canção Amor E Sexo (letra de Arnaldo Jabor, musicada por Rita Lee), “Amor é prosa, sexo é poesia”.

Considerado, à época, filme noir ou de suspense, “Amar foi minha ruína” saiu conquistando inúmeros prêmios. Femmina, pecado mortal, ruína, perdição, céu…

Letras de amor! É que nada esgota os dizeres do amor. Lembremo-nos da canção de Chico: “O que será que será? O que não tem fim, nem nunca terá…”

À medida que Stéphane Mallarmé escrevia Herodias, personagem-título de um dos seus mais belos poemas, ia lhe dando vida, “humanizando-a”, dando-lhe corpo, a tal ponto que se identificou a ela, que dela não mais pôde prescindir. Herodias, agora, não mais personagem. Herodias-mulher leva o poeta a sofrer todos os avatares que uma paixão amorosa proporciona. Atingido no seu ser, deixa por anos de escrever, absolutamente siderado e paralisado por Herodias, fruto de sua criação. Tomou a personagem ao pé de sua letra.

Numa das “Cartas Portuguesas” de Soror Mariana Alcoforado, há uma epígrafe com esse dizer: “Uma obra de arte ou de literatura, ainda quando muito perfeita, não passa de uma cópia da vida: as cartas são a própria vida” (Epígrafe da Primeira Carta, 2a edição, setembro 2004, p. 10), Paléologue.

Ao se referir a este livro, Saint Simon classifica o amor uni-presente na obra como “um amor desconforme” (Epígrafe da Terceira Carta, p. 38).

Na 5a carta, Soror Alcoforado escreve ao amado: “amei-o como louca! O desprezo que tive por todas as coisas!” (2004, p. 83). Adoecida por esse amor pouco correspondido, a autora das cartas assim se lamenta ao amado: “Que fiz eu para ser tão desgraçada? Por que envenenaste a minha vida?” (2004, p. 93).

Afinal de contas, sabemos que no entender de Lacan, ao comparar amor e desejo, ele situa o gozo feminino do lado do amor; por isso, as mulheres superestimam tanto o amor e seu cortejo: declarações, falas, cartas, serenatas… promessas!

Um homem negar amor a uma mulher pode ser devastador para esta; é disso que se trata nessas Cartas Portuguesas.

Mais… ainda, palavras de Lacan: “Falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico (…) O que o discurso analítico nos traz (…) é que falar de amor é, em si, um gozo” (LACAN, 1972-73, p. 112). Sem o AMOR, nada feito.

 

Referências
ALCOFORADO, Soror Mariana. Cartas Portuguesas, Livro de Bolso Publicações Europa- América. 2004
ATTIÉ, Joseph. Mallarmé o Livro – Estudo Psicanalítico, Forense Universitária. 2013. (As referências ao Poema Herodias de Stéphane Mallarmé e à crise que seguiu estão no livro supracitado, pp 31-43.)
JOYCE, James. “Música de Câmera”, 1907
JABOR, Arnaldo. “Amor e Sexo” cantado por Rita Lee.
LACAN, Jacques. Le Seminaire Livre XX Encore, Seuil, 1972-1973
LACAN, Jacques. Le Savoir du psychanlyte, Sem. 1971-72 (Publication hors commerce. Document interne à l’Association Freudienne Internationale et destiné à ses membres, sans date).

Desatino! n°4 – Boletim das XXV Jornadas

Olá pessoal,

Nossas XXV Jornadas se aproximam e as comissões trabalham cheias de fôlego preparando o intenso trabalho que se delineia passo a passo.

O Boletim Desatino! #4 traz as recentes colaborações de nossa comunidade nas diferentes categorias:

Na categoria Orientação ponto a ponto, temos os textos “Um sonho de Freud ou uma tese de Lacan?” de Ruth  Helena P. Cohen e o “O Real e o Sentido – Comentário de texto” por Eliana Bentes. A categoria Escavações do ICP foi enriquecida com mais uma contribuição. Thereza De Felice nos oferece “Um comentário sobre a exposição Porque yo escribo”, da artista plástica argentina Mirtha Dermisache. Apresentando o trabalho do analista na cidade, a Categoria Pólis-amores e loucuras está com três novos textos: “Pólis de poli-amores” de Clarisse Boechat, “Que Legado!!” por Fátima Pinheiro e “O amor de transferência em resposta à loucura da norma: uma experiência de psicanálise em extensão” de Andrea Villanova. Na Categoria Todo Mundo Lê contamos com a resenha do texto “Efeito de retorno à psicose ordinária” de Vicente Machado Gaglianone. Boa leitura!

 

Novidades no blog!

Em setembro inauguramos a Categoria Todo Mundo Vê, onde as contribuições apreendidas a partir do que se pode ver são bem-vindas! Filmes, séries, peças teatrais, pinturas e exposições são o ponto de partida para diferentes testemunhos experimentados no encontro com as diversas expressões da arte. Para essa nova categoria recebemos o texto de Maria Corrêa de Oliveira “O desmedido de Camille Claudel”, uma reflexão extraída de dois filmes sobre a escultora.

As playlists estão bombando no Spotify! Em ritmo de loucuras e amores, não deixam ninguém ficar parado. A Comissão de Divulgação e Mídia preparou novas playlists para irmos entrando no ritmo das nossas Jornadas. Tem para todos os gostos! No blog das Jornadas, basta clicar nos links “notas de loucura e amor” e curtir nossas seleções: Para inspirar, Para delirar, Para se acabar e a mais recente Para sambistas e chorões.

Nossa festa está em ritmo de frenéticos preparativos para bombar no encerramento dos trabalhos. O local, o Espaço Reduto, é uma linda casa localizada a 2 minutos a pé do Pró-Saber. Venha amar e enlouquecer com a gente! Acesse o blog https://loucuraseamores2017.wordpress.com/festa/ e tenha todas as informações sobre essa noite que promete ser de total desatino!

Para se inscrever nas XXV Jornadas, ligue para a secretaria da EBP Rio (2539-0960) ou do ICP RJ (2286-7993). Curta a página da EBP Rio no Facebook, confirme a presença no evento das XXV Jornadas e siga nosso Instagram, @loucuraseamores2017. Esperamos você!

Comissão de Divulgação e Mídia

O amor de transferência em resposta à loucura da norma: uma experiência de psicanálise em extensão

Por Andrea Villanova

A leitura a que somos convocados a partir de nossas inserções institucionais, onde nos aplicamos como analistas, opera sobre nós mesmos efeitos de orientação. Como destaca Laurent em a Sociedade do Sintoma, trata-se de elevarmos o sintoma ao estatuto de bússola para nossa orientação. Vale lembrar que o sintoma freudiano, introduzido na cultura como signo do que não se adequa, do que resiste à normatização, encontra em Lacan a formalização que nos oferece desdobramentos cruciais para a leitura de seus elementos constitutivos: saber e gozo. Tomar o sintoma como instrumento vai além da experiência da condução de análises individuais. O modo como cada sujeito vive o sintoma é singular, mas sua estrutura pode ser amplificada para a leitura de fenômenos da cultura.

É a partir da abordagem do sintoma que venho balizando uma prática de supervisão com residentes médicos. Diante da loucura da normatização e da adicção preconizadas pelo mestre contemporâneo, a posição do médico vem sofrendo transformações, como Lacan já nos advertia nos anos 60. O que está em jogo na posição do clínico? O que ela suscita? Como pensar o sintoma nesta perspectiva? Promovendo um curto-circuito na demanda de “supervisão em psicoterapia”, venho promovendo um trabalho orientado pela psicanálise, dirigido à abordagem dos impasses na prática clínica dos residentes, apostando na leitura de sua posição, de cada um deles, frente ao manejo dos casos na clínica psiquiátrica. O resultado tem sido uma abertura entusiasmada ao estudo de Freud e Lacan como possibilidade de retomada dos fundamentos da própria clínica, negligenciados na era dos DSMs. Cabe ressaltar o efeito de surpresa do encontro, a descoberta do amor de transferência como instrumento e não como resíduo a ser eliminado.

Referências:
Lacan, J. Psicoanálisis y medicina. Buenos Aires: Manantial, 1985.

Laurent, E. A sociedade do sintoma – a psicanálise hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.

Um comentário sobre a exposição Porque ¡yo escribo!

Por Thereza De Felice

Que lugar para uma escrita no mundo, se não for pelo imaginário, comunicável e compartilhável?
Os caminhos trilhados por Lacan, da instância da letra aos litorais de Lituraterra, os testemunhos de passe, com seus neologismos, letras e outros modos de escrita, e algumas invenções artísticas que se aproximam dessas rasuras, são jeitos que encontramos para tentar responder a esta pergunta.
A exposição Porque ¡yo escribo!, de curadoria de Agustin Pérez Rubio, em cartaz no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires – MALBA até o dia 9 de outubro, apresenta o instigante trabalho de caligrafia da artista argentina Mirtha Dermisache, bem como páginas de seus diários e trocas de cartas – em especial com Roland Barthes, interlocutor interessado na “escrita ilegível” de Mirtha.
Vemos em sua obra um trabalho com a letra que explode o sentido; desenha uma escrita sem que predomine qualquer significado. Esses traços parecem se assemelhar com os traços de uma letra-litoral, onde uma fração de gozo comparece num espaço entre real e simbólico, totalmente esvaziado de imaginário.
Acompanhamos, na exposição, um relato de Mirtha sobre o lugar de sua escrita. Um (não)lugar solitário, associado ao que chama de uma loucura desta escrita, loucura estampada por sua incompatibilidade com os sentidos e significantes prévios do mundo. A escrita desta artista carrega com força a presença do gesto, do “singular da mão que esmaga o universal”, como diz Lacan da caligrafia japonesa em Lituraterra (1971, p.20). Suas linhas capturam o olhar do espectador, não por um suposto sentido da escrita, mas por fisgar ali um real. Seu fazer com a letra, ela o traduz de modo afirmativo: “eu escrevo”.

“Desde hace unos meses pienso que en mi trabajo estoy demasiado sola.
A veces (a raíz de esto) pienso q’ la meta (a pesar mío) será algo así como la locura. (O porq’ no?, la locura).
Ni siquiera leo ni libros, ni diários ni revistas. Ni estudio nada. Ni me pienso con grupos que ‘hagan algo’, cosa que parece ser muy importante en este momento en esta ciudad y especialmente para la gente del ‘corto circuito’¹.
Todos de alguna manera pertenecen a ‘algo’. Y yo, no es que no quiera, pero me siento no perteneciendo a nada en especial (ahora pienso q’ de una forma, diría: casi lamentable//, tengo una manera rara de pertenecer a todo).
En el nivel del trabajo, mis cosas son totalmente rechazas (con algunas excepciones) por los que escriben². Por supuesto, ya hace tiempo que ni menciono el :- yo… escribo…-
Quizás algún otro día siga con todo esto.
Junio de 1971.

¹ Bario Norte y alredores
² Por los q’ no escriben también…”

 

 

Referências Bibliográficas:
LACAN, J. (2003[1971]) Lituraterra. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
RUBIO, A. P. (curador) Exposição “Porque ¡yo escribo!” – Mirtha Dermisache. Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, 2017.