Resenha do texto “Efeito de retorno à psicose ordinária”

Por Vicente Machado Gaglianone

Esse texto de Jacques-Alain Miller é a transcrição de sua conferência proferida em Paris (2008) em um seminário para analistas de língua inglesa intitulado Seminário Anglófono. Encontra-se publicado no número 3 da revista digital Opção Lacaniana Online e no livro A psicose ordinária – A convenção de Antibes, Scriptum (2012), que é referência para esta resenha.

O retorno da proposição de Miller não vem do Real; antes, está no registro do retorno do recalcado, com soluções de compromisso e de formação de sintoma. Fazer do sintoma da época um sinthoma que incluísse um savoir y faire parece ser seu tom. Já no início, Miller agradece a Marie-Hélène Brousse, então coordenadora de seu seminário, pela iniciativa em acolher e ressoar sua preocupação com certo esquecimento daquilo que havia sido lançado dez anos antes por ocasião da Convenção de Antibes – última das três conversações francófonas ocorridas na França: Conciliábulo de Angers (1996), Conversação de Arcachon (1997) e, por fim, Convenção de Antibes (1998).

Mas, qual era o sintoma da época?

O último ensino de Lacan, com seu credo “Todo mundo é louco, ou seja, delirante” (LACAN, 1979, p.278), vai conceber que o Nome-do-Pai não existe. Ele é sempre um predicado, um elemento específico entre outros que, para um determinado sujeito, funciona como um Nome-do-Pai. Lacan, visionário, antecipa as novas formas de enodamento entre RSI na modernidade. Os analistas, nos idos dos anos noventa, já não tinham o conforto de antes em diagnosticar. Especialmente nos casos de histeria – com as desordens no registro do corpo -, a questão diagnóstica colocava impasses, tornando, cada vez mais, o credo lacaniano “foraclusão do Nome-do-Pai” inoperante no binarismo clássico. Miller então conclui que, àquela altura (Antibes), era necessário criar outro sintagma para driblar a rigidez da clínica binária (N I P) que, desde sempre, organizara todo o campo de trabalho. O “ou isso ou aquilo”,  absoluto, já não operava na clínica. A psicose ordinária viria, então, introduzir o terceiro excluído pela construção binária, mas, ao mesmo tempo, localizando-o do lado direito do binarismo (N h P). A neurose deixa de ser, assim, um fundo de tela por onde se deduz a psicose.

“Uma desordem […] na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito” (Lacan, 1957-58, p. 565)

Quando, então, uma psicose não fosse evidente e, por outro lado, não se tratasse de uma neurose – já que, como Miller diz, uma neurose é sempre bem delimitada -, seria preciso pesquisar os sinais discretos. Tratar-se-ia, então, de uma clínica delicada, das intensidades, dos “mais ou menos”, de, por fim, poder localizar no sujeito o que Lacan elucidou em seus Escritos como “uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito” (LACAN, 1957-58, p.565).

Mas, de que desordem se trata, já que, na neurose, ela parece também se manifestar? Para tal tarefa, Miller vai propor “A tripla externalidade” – o que se tornará, como se vê a posteriori, um verdadeiro credo Lacan-milleriano para o diagnóstico na clínica contemporânea; uma espécie de guia para esse “terreno movediço”. Ao mesmo tempo, Miller alerta para o perigo que o “conceito” de psicose ordinária porta, caso seja tomado na literalidade, como um terceiro termo excluído do binarismo clássico. Lembrar que ele escreve (N h P), sendo este terceiro termo, dessa forma, inscrito do lado da psicose, e acrescenta:

“Uma vez que disseram que é uma psicose ordinária, tentem classificá-la de maneira psiquiátrica. Não digam simplesmente que é uma psicose ordinária; devem ir mais longe e reencontrar a clínica psiquiátrica e psicanalítica clássica.” (MILLER, 2012, p.412)

Miller conclui dizendo que, caso contrário, a psicose ordinária servirá como um “asilo da ignorância” e um refúgio para não saber. A psicose ordinária é uma psicose e, assim sendo, pode ser relacionada às categorias nosográficas clássicas.

A Tripla Externalidade

1-   Social – Qual é a identificação do sujeito com uma função social? No caso da psicose ordinária encontra-se sempre uma relação negativa (distinta da maneira autônoma do obsessivo ou da revolta histérica); ou, no sentido inverso, pelo apego identificatório maciço com uma função, onde o trabalho, por exemplo, serve como Nome-do-Pai. Em todo caso, a coisa seria como uma espécie de fosso que constitui misteriosamente uma barreira invisível. Desligamentos, desconexões ou adesões fixas à moda esquizofrênica ou paranóica.

2-   Corporal – O corpo como Outro para o sujeito é o que está em questão. Partindo da premissa lacaniana de que “Você não é um corpo, mas você tem um corpo” (MILLER, 2012, p.414, apud LACAN.), verifica-se que, na psicose ordinária, o corpo se desfaz por vezes, fazendo o sujeito inventar para si laços artificiais para se apropriar dele, para “prender” (serrer) seu corpo a ele mesmo. É o famoso “grampo”. Uma questão de tonalidade, de buscar na sutileza pelo menos-phi. Na neurose, há sempre algo da restrição, enquanto na psicose se percebe o infinito na falha presente na relação entre o sujeito e seu corpo.

3-   Subjetiva – Na relação do sujeito com seu Outro subjetivo, o que predomina é a experiência do vazio e da vacuidade, vividos de forma não dialética. Há sempre, também, uma fixidez da identificação com o objeto a como dejeto, do tipo real e não simbólica, porque ultrapassa a metáfora. O sujeito pode se transformar num rebotalho do Outro, realizando o dejeto sobre a sua pessoa.

Por fim, Miller ressalta que o novo sintagma tem duas consequências principais: por um lado, circunscreve com mais firmeza o campo da neurose, com nítidos valores agregados, como estar referido com o Nome-do-Pai, e não com um Nome-do-Pai; estar referido ao menos-phi, à castração, à impotência e à impossibilidade; conter uma diferenciação nítida entre Eu e Isso, entre os significantes e as pulsões e ter um supereu claramente traçado. Caso contrário, não será uma neurose. E, por outro lado, verifica-se uma generalização do conceito de psicose.

Um trabalho fabuloso e crucial por estabelecer nova relação topológica entre o classicismo e o inédito da clínica atual, em uma perspectiva mais alinhada ao último ensino de Lacan. Um verdadeiro testemunho do esforço da Orientação Lacaniana em manter a psicanálise à altura de nosso tempo.

Referências:

LACAN, J. (1957-1958). De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

LACAN, J. (1979). Transferência em Saint Denis?. Em: Ornicar?, n°17/18, p. 278.

MILLER, J.-A. Efeito do retorno à psicose ordinária. Em: A psicose ordinária. Belo Horizonte: Scriptum Livros, 2012.

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Resenha do livro “El Misterio del cuerpo hablante”

Por Ângela Batista

O livro de Araceli é uma leitura importante para pensarmos o último ensino de Lacan porque o corpo ocupou nele um lugar fundamental. Nesse sentido, encanta o leitor, pois lemos esses conceitos a partir da própria experiência de análise de Araceli. Ela, no prefácio, já diz que havia escrito esse livro a partir do tratamento dado ao seu corpo em seu percurso analítico. São as variações do “relevo da voz” (nomeação de gozo), sons de lalíngua, inscritas em seu corpo e de como pôde construir um saber-fazer com isso, que resultou em fértil transmissão.

Araceli faz também uma pesquisa sobre o corpo na histeria e na obsessão, enfatizando a atualidade da mesma no século XXI, em que o sintoma no corpo do sujeito constitui um obstáculo quanto à tentativa de homogeneização que pretende a ciência em sua aliança com o discurso capitalista no mais de gozar standard. O livro nos faz caminhar de forma atenta para pensar em como Lacan pensa o real, a partir do depoimento de Araceli de sua própria análise e de como a experiência da inexistência da relação sexual pôde conduzir um final de análise a um afeto de satisfação.

Desde o princípio, a psicanálise se ocupou do corpo a partir do sintoma. O corpo pulsional, corpo de que temos medo, é o corpo como sede do gozo, impossível de domesticar, e que sempre escapa. Esse é o corpo da psicanálise que abre diversas perspectivas na abordagem do real. Araceli nos faz caminhar através da perspectiva do sinthoma, do luto, do amor, e do gozo feminino. Como Lacan pensa o real e a necessidade de uma escritura para o irredutível do sinthoma é o depoimento encantador de Araceli, ao falar das variações misteriosas de seu modo de viver a pulsão e de como pôde arrumar seus restos sintomáticos.

O livro trata desse mistério que é a relação do corpo com o inconsciente e como ter um corpo implica em saber fazer algo com ele. Nesse sentido, o último ensino de Lacan prioriza analisar o parlêtre, quer dizer, entrar na perspectiva do sinthoma, enquanto um acontecimento de corpo. Araceli demonstra esse deslocamento do conceito de sintoma, como referido ao inconsciente transferencial, para uma emergência de gozo no corpo.

Araceli também ensina algo importante sobre a feminilidade e sobre o amor. Dedica um capítulo aos impasses que o mal entendido entre os sexos pode produzir sempre. A impossibilidade de fazer coincidir o encontro de uma mulher com um homem coloca o amor em questão; consentir em ser um sintoma para um homem é o que pôde fazer diferença em seu modo de amar. Seus últimos sonhos em análise relatam a passagem da posição histérica à posição feminina. Pôde aceitar um amor fruto da contingência dos encontros que guarda seus mistérios, e que não necessita de uma busca permanente de sentido para o exílio da relação entre os sexos.

Finalmente, a experiência analítica permite a cada um cernir o seu real, um real singular, produzido do encontro contingente entre lalíngua e o corpo. Assim, Araceli fala da frase que incidiu sobre seu corpo, afetado por um gozo mortífero de difícil luto: “Ay, si su madre la viera!”.  Araceli nos transmite um saber fazer com o sinthoma no final de sua análise e seu livro nos ensina a ler, a partir de seu relato, os conceitos do último ensino de Lacan, e com ele tecer uma nova maneira de pensar o final de análise. Araceli demonstra como a experiência da conclusão de sua análise pôde transmitir uma pragmática do sinthoma, um bom uso do mesmo. Evidencia, assim, com seu livro, (testemunho), sua solução sinthomática para o seu incurável. Podemos verificar que é preciso tempo para, no final, saber manejá-lo, em direção à nobreza de uma invenção.

Todo mundo lê

“Todo mundo lê” é uma categoria do blog das XXV Jornadas que promove um convite a todos que quiserem escrever e compartilhar resenhas críticas dos textos de orientação para nosso trabalho com as “Loucuras e Amores na Psicanálise”. Nosso intuito é fazer com que circulem as ideias que vão se depositando para cada um daquilo que lemos sobre o tema, apostando nesses pequenos escritos como forma de capturar o que fisga alguém no que se lê. Assim, vamos sistematizar algumas referências bibliográficas neste espaço virtual, mas não sem o estilo de cada um, fomentando e instigando nossas questões. Desse trabalho entre coletivo e singularidades, então, poderemos recolher uma rede de ideias pinçadas para nossas Jornadas.

A coordenação das Jornadas, junto com a Comissão Científica e a Comissão de Livraria já disponibilizaram uma lista de textos de orientação, que vocês podem conferir na aba “Livraria”, aqui no blog, e em breve acrescentaremos mais títulos a essa lista.

Thereza De Felice