Resenha do livro “El Misterio del cuerpo hablante”

Por Ângela Batista

O livro de Araceli é uma leitura importante para pensarmos o último ensino de Lacan porque o corpo ocupou nele um lugar fundamental. Nesse sentido, encanta o leitor, pois lemos esses conceitos a partir da própria experiência de análise de Araceli. Ela, no prefácio, já diz que havia escrito esse livro a partir do tratamento dado ao seu corpo em seu percurso analítico. São as variações do “relevo da voz” (nomeação de gozo), sons de lalíngua, inscritas em seu corpo e de como pôde construir um saber-fazer com isso, que resultou em fértil transmissão.

Araceli faz também uma pesquisa sobre o corpo na histeria e na obsessão, enfatizando a atualidade da mesma no século XXI, em que o sintoma no corpo do sujeito constitui um obstáculo quanto à tentativa de homogeneização que pretende a ciência em sua aliança com o discurso capitalista no mais de gozar standard. O livro nos faz caminhar de forma atenta para pensar em como Lacan pensa o real, a partir do depoimento de Araceli de sua própria análise e de como a experiência da inexistência da relação sexual pôde conduzir um final de análise a um afeto de satisfação.

Desde o princípio, a psicanálise se ocupou do corpo a partir do sintoma. O corpo pulsional, corpo de que temos medo, é o corpo como sede do gozo, impossível de domesticar, e que sempre escapa. Esse é o corpo da psicanálise que abre diversas perspectivas na abordagem do real. Araceli nos faz caminhar através da perspectiva do sinthoma, do luto, do amor, e do gozo feminino. Como Lacan pensa o real e a necessidade de uma escritura para o irredutível do sinthoma é o depoimento encantador de Araceli, ao falar das variações misteriosas de seu modo de viver a pulsão e de como pôde arrumar seus restos sintomáticos.

O livro trata desse mistério que é a relação do corpo com o inconsciente e como ter um corpo implica em saber fazer algo com ele. Nesse sentido, o último ensino de Lacan prioriza analisar o parlêtre, quer dizer, entrar na perspectiva do sinthoma, enquanto um acontecimento de corpo. Araceli demonstra esse deslocamento do conceito de sintoma, como referido ao inconsciente transferencial, para uma emergência de gozo no corpo.

Araceli também ensina algo importante sobre a feminilidade e sobre o amor. Dedica um capítulo aos impasses que o mal entendido entre os sexos pode produzir sempre. A impossibilidade de fazer coincidir o encontro de uma mulher com um homem coloca o amor em questão; consentir em ser um sintoma para um homem é o que pôde fazer diferença em seu modo de amar. Seus últimos sonhos em análise relatam a passagem da posição histérica à posição feminina. Pôde aceitar um amor fruto da contingência dos encontros que guarda seus mistérios, e que não necessita de uma busca permanente de sentido para o exílio da relação entre os sexos.

Finalmente, a experiência analítica permite a cada um cernir o seu real, um real singular, produzido do encontro contingente entre lalíngua e o corpo. Assim, Araceli fala da frase que incidiu sobre seu corpo, afetado por um gozo mortífero de difícil luto: “Ay, si su madre la viera!”.  Araceli nos transmite um saber fazer com o sinthoma no final de sua análise e seu livro nos ensina a ler, a partir de seu relato, os conceitos do último ensino de Lacan, e com ele tecer uma nova maneira de pensar o final de análise. Araceli demonstra como a experiência da conclusão de sua análise pôde transmitir uma pragmática do sinthoma, um bom uso do mesmo. Evidencia, assim, com seu livro, (testemunho), sua solução sinthomática para o seu incurável. Podemos verificar que é preciso tempo para, no final, saber manejá-lo, em direção à nobreza de uma invenção.

Todo mundo lê

“Todo mundo lê” é uma categoria do blog das XXV Jornadas que promove um convite a todos que quiserem escrever e compartilhar resenhas críticas dos textos de orientação para nosso trabalho com as “Loucuras e Amores na Psicanálise”. Nosso intuito é fazer com que circulem as ideias que vão se depositando para cada um daquilo que lemos sobre o tema, apostando nesses pequenos escritos como forma de capturar o que fisga alguém no que se lê. Assim, vamos sistematizar algumas referências bibliográficas neste espaço virtual, mas não sem o estilo de cada um, fomentando e instigando nossas questões. Desse trabalho entre coletivo e singularidades, então, poderemos recolher uma rede de ideias pinçadas para nossas Jornadas.

A coordenação das Jornadas, junto com a Comissão Científica e a Comissão de Livraria já disponibilizaram uma lista de textos de orientação, que vocês podem conferir na aba “Livraria”, aqui no blog, e em breve acrescentaremos mais títulos a essa lista.

Thereza De Felice