Da segregação à invenção: a importância da precariedade*

Por Paula Legey

“O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

(BENJAMIN, 1985 [1940], p.224)


Em um texto chamado Racismo 2.0 (2014), Laurent escreve sobre o racismo do momento em que vivemos. Ele afirma que a questão do racismo em nossa época de mercados comuns reside não exatamente em um choque de civilizações, mas em um choque dos gozos, e ainda que “Esses gozos múltiplos fragmentam o laço social, daí a tentação de apelo a um Deus unificador” (2014). Laurent parece indicar que, quanto menos o simbólico cumpre o papel de unificar através da norma paterna, maior é o risco de soluções de unificação pela exclusão do gozo do Outro.

O racismo, nas palavras de Laurent, “reside na rejeição de um gozo inassimilável, domínio de uma barbárie possível” (2014); é um mecanismo em que, para que seja possível se afirmar como indivíduo ou mesmo como um grupo unificado, é preciso rejeitar o gozo do Outro. Mas como, sem o saudosismo da norma paterna compartilhada, é possível a invenção de estratégias de unificação que não pela segregação?

O artista Ícaro Lira** realiza um trabalho a partir das ruínas, dos pedaços e fragmentos do passado, sem muito lugar na história oficial. Em uma de suas exposições/projetos, Cidade Partida (2014), Ícaro realiza um paralelo do que ocorreu em Canudos com outros processos de segregação; processos cíclicos que não cessam de acontecer. Como afirma em entrevista para Paulo Miyada, “Cidade Partida é uma tentativa de aproximação entre a destruição de Canudos com a destruição-gentrificação que as cidades do Brasil passam hoje” (2014)

No trabalho que deu origem à exposição, Ícaro esteve em Canudos e outras cidades do sertão do nordeste, onde recolheu objetos e palavras, fotos e outros textos. Esses fragmentos, articulados também com outros objetos do presente, não menos em conexão com esses pedaços de história, deram origem a uma montagem que foi a exposição, “mais um livro aberto do que um trabalho acabado”, como define o artista na entrevista citada acima.

Arte e política se encontram ligadas de forma quase indissociável na criação de Ícaro. Esse trabalho nos permite ter acesso a um fazer que tece uma rede entre fragmentos que não se unificam, em que os limites que determinam onde começa e termina a obra são fluidos e sujeitos a redefinições. Esse fazer parece nos ensinar sobre as formas possíveis de criar algo que se sustente sem o todo da norma universal e sem o apelo à segregação como estratégia de unificação. Talvez possa ser uma forma de aproximação do conceito de sinthoma, em que uma solução singular faz laço ao mesmo tempo em que pode sustentar peças soltas, numa amarração não tão rígida, que mantém espaço para o imprevisível.

Esse texto só pode ser escrito a partir de uma conversação organizada pela Clínica Ato – Psicanálise em Movimento, formada por Adriana de la Peña, Natasha Berdichevsky e por mim. A conversação ocorreu no Museu da República em 16 de agosto de 2017. Participaram: Ícaro Lira, Natasha Berditchevsky, Mario de Souza Chagas e Marcus André Vieira. As ideias trazidas nesse debate suscitaram essas reflexões.

** Para conhecer um pouco do trabalho de Ícaro vale a pena conferir o site: http://mapa.pacodasartes.org.br/page.php?name=artistas&op=detalhe&id=460

 

Referências Bibliográficas

BENJAMIN, W. (1940). Teses sobre o conceito de história. Em: Obras Escolhidas I. São Paulo: Editora Brasiliense: 1985.

LAURENT, E. Racismo 2.0. Em: Lacan Cotidiano n. 371, de 18 de fevereiro de 2014. Disponível em <http://ampblog2006.blogspot.com.br/2014/02/lacan-cotidiano-n-371-portugues.html> Acesso em outubro de 2017.

Entrevista de Ícaro Lira a Paulo Miyada (2014)  Disponível em <http://mapa.pacodasartes.org.br/page.php?name=artistas&op=detalhe&id=460>. Acesso em outubro de 2017.

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