Nota sobre o pai e suas versões

Por Paula Borsoi

   “No creer en el NP a condición de servirse de él”. Es una frase que inhabilita para  el lacanismo a posibilidad de creer ciegamente en las virtudes de la metáfora  paterna… o ao menos hace resaltar que esta metáfora paterna está arraigada en un hecho de creencia atado a una tradición…

(MILLER, 2015, p. 312)

Prescindir do pai para servir-se dele: esta afirmativa de Lacan, da qual Miller partiu em seu comentário, é uma contribuição clínica importante sobre a questão do pai, da metáfora paterna e de sua função, que os tempos atuais nos obrigam a novas deduções.

Ao poder prescindir do pai, a crença nele fica abalada e essa mesma operação permite verificar se algo desta função se transmitiu. O que a metáfora paterna engendra é o furo, o vazio, resposta singular de onde o sujeito vai construir um sintoma para lidar com a angústia, advinda dessa falta de garantia.

Miller prossegue neste parágrafo articulando crença e tradição, advertindo-nos que a crença cega não nos permite ver seu fracasso, quer o nome do pai esteja presente, quer esteja foracluído. A metáfora paterna tem uma lógica de funcionamento e Lacan demonstrou isso clinicamente, fazendo uma generalização da carência paterna em relação ao gozo, ou seja, indicando que ela é insuficiente para negativar o gozo. De todo modo, é uma construção pertinente enquanto função, para instalar uma limitação do gozo e o que se transmite é o impossível. A metáfora paterna, que ajuda o sujeito a ordenar as coisas do mundo em termos de lei e desejo, em alguns casos está muito enfraquecida, porque o objeto tomou a dianteira: o sujeito consome, seduzido pelo acesso a qualquer objeto, até que ele mesmo seja consumido como objeto, como nos casos de compulsão. A promessa de acesso ao ilimitado deixa encoberto o impossível, trazendo consequências devastadoras. Esta lógica operatória é importante, mas com o furo que Lacan aí fez, o resultado foi um nome do pai entre outros. O nome do pai se pluraliza, deixa de ser específico, passando a circunscrever os mais variados modos de manifestação sintomática. A redução do gozo passa a ser engendrada por invenções singulares. O lugar universal ocupado pelo nome do pai foi deslocado por Lacan para reduzi-lo a um sintoma.

Uma clínica baseada somente na crença cega no pai e nas virtudes da metáfora paterna pode se tornar inviável. A justa medida das coisas, que garantia um lugar devido e organizado em torno do pai, está rompida com as mudanças ocorridas na significação do mundo atual, onde a  relação com o corpo, por exemplo, ganha relevo, exigindo dos analistas um novo modo de abordagem. Por outro lado, se não podemos mais dividir os sintomas em neuróticos ou psicóticos, com as fronteiras borradas também não podemos nos esquecer que na tradição psicanalítica, desde Freud, já estava  presente o umbigo do sonho e os restos pulsionais que não eram absorvidos pelo sintoma. Desde sempre algo fica fora, deixa um resto, não se recompõe; o corpo é fragmentado.

O analista atento à subjetividade de sua época, como nos orientou Lacan, oferece-se como objeto de uso para os sujeitos numa análise, fazendo com que o mais contemporâneo de cada um possa encontrar suas referências na sua tradição sintomática, não para dar continuidade à ela, mas para subverter seus pontos de impasse. O gozo opaco que se transmite nas relações familiares, qualquer que seja a sua estrutura, invade a atualidade de cada um.

O pai é um sintoma, nos ensinou Lacan e servir-se dele será o modo com que cada um vai manter amarrado o real, o simbólico e o imaginário. Quando o sem sentido do sintoma mostra sua face, desregulando o corpo e o gozo, desestabilizando e angustiando o sujeito, ele vai  precisar engendrar um sintoma, apoiado na sua versão do pai.

Atualmente, encontramos na clínica sujeitos acossados pelo assédio de um gozo desenfreado. A versão singular do pai pode traçar um caminho, onde o sujeito encontre um modo próprio de lidar com o gozo, que não seja o do excesso mortífero.

Referências:

MILLER, Jacques-Alain. Todo el mundo es loco. Paidós: Buenos Aires, 2015.

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