Comentário ao texto “Palabras Preliminares” (MILLER, 2006)

Por Vanda Assumpção Almeida

     El amor en las psicosis nos enseña sobre el amor en general… Ó será por último que, el sujeto psicótico no ama, sino su delirio, según lo expresado por Freud?…las psicosis pueden entonces enseñarnos mucho sobre esa locura común que es el amor y sobre la transferencia. (MILLER, 2006, p.11)

Darei no texto dois pontos que podem nos ajudar a pensar sobre as questões do amor. Primeiramente, o fato de que “o amor é sempre narcísico” (MILLER, 2006, p.10) e, depois, a relação de proximidade que há entre o amor e a loucura, tal qual assinalada por Miller.

No que se refere à psicose, o narcisismo se pronuncia através da erotomania, no delírio erotômano, que vem servir de defesa ao que vem do Outro, uma vez que a metáfora simbólica do Nome do Pai está foracluída. Desse modo, o que vem do campo do Outro é ameaçador para o sujeito psicótico, e seu delírio é o recurso de que dispõe para dar conta do real. Seria preciso que a castração simbólica estivesse inscrita, sendo essa a condição de possibilidade para fazer barreira ao que vem do outro real como algo ilimitado. Miller destaca que o amor na psicose, segundo Lacan, é “um amor morto” (2006, p.10), ou seja, “mais que em qualquer outra parte o sujeito só ama a si mesmo, ou um ideal pelo qual substitui a realidade do parceiro” (2006, p.11), o que nos leva a indicar que a observação de Freud quanto ao amor para o sujeito psicótico é de que “ele não ama senão o seu delírio” (2006, p.11).

Inversamente, podemos dizer que “amar é antes de tudo querer ser amado” (MILER, 2006, p.11), mesmo que seja às expensas de se fazer objeto do outro no amor. Tal fato pode nos demonstrar o que afirma Miller, que entre o amor e a loucura há um limite tênue, à diferença de que estar na posição de falo do Outro, como consequência do narcisismo, tem resultados distintos para o sujeito psicótico, como demonstrado por Freud e Lacan nos casos Schreber e Aimée.

E quanto ao amor de transferência? Trata-se de um amor que traz as marcas, o traço de um amor passado, de uma experiência vivida. Desse modo, é dessa experiência que o sujeito estabelece o laço transferencial com o outro. Será o início de um tratamento que poderá levar ao que, na psicanálise, designamos como novo amor.

E quanto à psicose, o que tem Miller a dizer? Ele traz à luz a capacidade de invenção do analista, o que implica que este possa permitir o deslocamento das insígnias significantes para que a transferência se dê e, através da sua escuta, possa recolher os detritos da língua passíveis de se tornarem novas invenções, não mais de ordem ameaçadora, mas que apontem na direção de um novo amor.

Referências
MILLER, Jacques-Alain et al. Palabras Preliminares. Em: El amor en las Psicosis. Buenos-Aires: Paidós, 2006, p. 9-12.

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De como a transferência pode evitar a erotomania

Por Sandra Viola

Si consideramos el predominio de este aspecto del vacio de la significacíon de la experiencia amorosa, podemos formular una primera pregunta de la siguiente manera: el valor enigmático del amor tiene alguna repercusión sobre lo que es una modalidad especial de la significación, a saber, la transferencia? Cuales son los elementos concernientes a la dirección de la cura que impidieron que el sujeto se declarara una erotomania en la relacción transferencial?

(MILLER, 2006, p. 115)

O enigma se reconhece como o comparecimento de um ou mais significantes que querem dizer alguma coisa, fazendo surgir uma significação. Sabemos que o valor enigmático do amor tem efeitos sobre a modalidade especial de significação que é a transferência. Numa neurose, a fantasia é o recurso de que o sujeito se vale para se haver com o enigmático encontro com o Outro. Como responder a isto numa psicose? E ainda, como evitar que o sujeito se instale numa erotomania transferencial?

No livro El amor en las psicosis (MILLER [dir.], 2006), Jésus Santiago comenta um caso clínico trabalhado por Nicole Gueil, intitulado “A lógica do celibato”, precioso para aprendermos sobre o amor transferencial e a erotomania numa psicose. Nicole demonstra muito bem que o manejo do analista, privilegiando o trabalho do significante em detrimento do enigma do encontro amoroso evitou o desencadeamento de uma erotomania e possibilitou ao sujeito certo arranjo com o sinthoma.

Referências:

MILLER, Jacques-Alain [dir.]. El amor en las psicosis. Paidós: Buenos Aires, 2006.

Leitura de Lacan, no Seminário 20

Por Maria Silvia G. F. Hanna

“Se o inconsciente é mesmo o que eu digo, por ser estruturado como uma linguagem, é no nível da língua que temos que interrogar esse Um… o que tenho que designar hoje é muito propriamente designar de onde a coisa não só pode mas deve ser tomada por nosso discurso, e por essa renovação que traz o domínio do Eros a nossa experiência”.
(LACAN, 1972-73, p. 91)

“(…) é mesmo preciso partir disto, que esse Há Um é para ser tomado com o sotaque de que há Um sozinho. É daí que se apreende o nervo do que temos mesmo que chamar pelo nome com que a coisa retine por todo o curso dos séculos, isto é o amor”.
(LACAN, 1972,73, p. 91)

“Na análise, só lidamos com isso e não é por outra via que ela opera. Via singular, nisso que só ela permitiu destacar aquilo que, eu que lhes falo, acreditei dever suportar a transferência, no que ela não se distingue do amor, com a fórmula o sujeito suposto saber”.
(LACAN, 1972-73, p. 91)

“Falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico. (…) O que o discurso analítico nos traz (…) é que falar de amor é, em si mesmo, um gozo”.
(LACAN, 1972-73, p. 112)

Ao ler com cuidado e várias vezes esses parágrafos, perceberemos uma mudança no lugar do amor na experiência da análise. Até esse momento, a transferência – inicialmente definida por S. Freud como uma falso enlace, construída enquanto conceito ao longo de sua obra e retomada por J. Lacan inúmeras vezes durante seu ensino – ganhando mais uma precisão no Seminário, livro 20. De que se trata? Como entender isso?

Sabemos que a transferência é um amor autêntico, articulado por J. Lacan a partir do conceito do Sujeito suposto saber, no Seminário, livro 11. Essa suposição foi situada como o suporte do amor. Nesse sentido, o Sujeito suposto Saber foi apresentado como o pivô da transferência, tendo como função ordenar todos os fenômenos que emergiam nesse campo: sugestão, resistência e repetição. A fórmula do Sujeito suposto Saber apresenta uma concatenação significante que inclui o analista.

No contexto do Seminário, livro 20, J. Lacan interroga o inconsciente estruturado como uma linguagem, afirmando que este deve ser pensado a partir da alíngua, isto é, aí onde o significante se encontra em estado de dispersão, como um-sozinho. Dessa forma o inconsciente estruturado como uma linguagem passa a ser considerado como uma elucubração sobre alíngua.

A experiência analítica oferece a oportunidade, através do amor, de articular esses significantes uns. Podemos perceber que, ao dizer isso, o suporte se inverte; não é mais a suposição de saber que gera o amor e sim o amor que gera a suposição de saber: ao amá-lo, suponho um saber.

Assim, o amor é a sustentação e abertura para a concatenação dos significantes, configurando assim no horizonte um saber suposto. Em outras palavras, dizemos que o amor de transferência suporta o Sujeito suposto Saber no encontro com o analista, produzindo-se a partir deste fato, um trabalho inédito dos significantes uns, ligando uns aos outros e cavando novas fendas. Esse trabalho resulta em uma retirada do gozo das antigas prisões que gerava um sofrimento insuportável para o sujeito.

Referências:

LACAN, Jacques. (1973 [1964]) O Seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, Jacques. (1975 [1972-73]) O Seminário, livro 20 – Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.