O amor de transferência em resposta à loucura da norma: uma experiência de psicanálise em extensão

Por Andrea Villanova

A leitura a que somos convocados a partir de nossas inserções institucionais, onde nos aplicamos como analistas, opera sobre nós mesmos efeitos de orientação. Como destaca Laurent em a Sociedade do Sintoma, trata-se de elevarmos o sintoma ao estatuto de bússola para nossa orientação. Vale lembrar que o sintoma freudiano, introduzido na cultura como signo do que não se adequa, do que resiste à normatização, encontra em Lacan a formalização que nos oferece desdobramentos cruciais para a leitura de seus elementos constitutivos: saber e gozo. Tomar o sintoma como instrumento vai além da experiência da condução de análises individuais. O modo como cada sujeito vive o sintoma é singular, mas sua estrutura pode ser amplificada para a leitura de fenômenos da cultura.

É a partir da abordagem do sintoma que venho balizando uma prática de supervisão com residentes médicos. Diante da loucura da normatização e da adicção preconizadas pelo mestre contemporâneo, a posição do médico vem sofrendo transformações, como Lacan já nos advertia nos anos 60. O que está em jogo na posição do clínico? O que ela suscita? Como pensar o sintoma nesta perspectiva? Promovendo um curto-circuito na demanda de “supervisão em psicoterapia”, venho promovendo um trabalho orientado pela psicanálise, dirigido à abordagem dos impasses na prática clínica dos residentes, apostando na leitura de sua posição, de cada um deles, frente ao manejo dos casos na clínica psiquiátrica. O resultado tem sido uma abertura entusiasmada ao estudo de Freud e Lacan como possibilidade de retomada dos fundamentos da própria clínica, negligenciados na era dos DSMs. Cabe ressaltar o efeito de surpresa do encontro, a descoberta do amor de transferência como instrumento e não como resíduo a ser eliminado.

Referências:
Lacan, J. Psicoanálisis y medicina. Buenos Aires: Manantial, 1985.

Laurent, E. A sociedade do sintoma – a psicanálise hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.

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