Um sonho de Freud ou uma tese de Lacan?

Por Ruth Helena P. Cohen

Segundo Miller, “todo mundo é louco” é um desdobramento do “Nada es más que sueño”, de Freud (MILLER, 2015, p. 339). Esse ‘para todos’, universal, na generalização do sonho ou no entre aspas do delírio, carrega consigo uma tensão, já que o discurso analítico trabalha com a singularidade e encontra, na particularidade das estruturas clínicas, referência ao universal. O que temos, então? Miller nos dá a chave e, assim, abrimos a porta da articulação entre o impossível e o contingente. Seria o contingente o despertar para continuar sonhando? A loucura generalizada, se não é psicose como categoria clínica, como incluir nela o delírio? Basta que um significante se articule a outro, diz Miller (1995), para que o delírio tome ares de saber. Ou seja, todo saber é delírio e o delírio é um saber.

O inominável, o gozo impossível, leva-nos à pergunta sobre os saberes. De que maneira se pode passar do impossível saber, para um saber não-todo? Os testemunhos de passe buscam transformar o saber de um só, fruto de uma experiência, em matéria de ensino para todos. Na verdade estamos no terreno e na herança aristotélica entre o para todo x e o existe um, da matemática moderna dos quantificadores proposicionais de Frege, que Lacan utilizou para localizar as posições feminina e masculina nas fórmulas da sexuação – ou seja, o “não-todo” fálico e o todo fálico – e, para isso, valeu-se do quantor ∀ para o universal e ∃ para existência.

Se o discurso analítico não se sustenta do universal, por outro lado, o “todo mundo é louco”, seja do elogio da loucura proposto por Erasmo de Rotterdam seja da frase de Lacan, é tributo que percorre o tempo para dizer que o gozo, a verdade e a loucura são nomes que damos para localizar o lugar do “Ya-Nadie” ou de “o sujeito é feliz” (MILLER, 2015, p. 340). Nesta direção, podemos dizer que o analisante sonha pela via particular de seu sintoma e delira quando não tem a bússola do Nome-do-Pai como instrumento, percorrendo, assim, os labirintos do saber não orientável, como nos indica Miller (idem, p, 318), fazendo alusão à banda de Moebius.

Qual seria a diferença entre o delírio privado de Schreber e aquele que encontramos no último ensino de Lacan, ao considerar a própria ordem simbólica como um delírio? Posta esta questão, cabe repensarmos o lugar do analista, no século XXI, quanto às consequências clínicas do tratamento do falasser, cujo Nome-do-Pai não tem mais função de nomeação, mas de predicado. Miller nos dá a pista: “Ser analista é saber que seu próprio mundo, seu próprio fantasma, sua própria maneira de fazer sentido é delirante. É a razão pela qual vocês tentam abandoná-lo, somente para perceber o delírio próprio de seu paciente, sua maneira de fazer sentido” (MILLER, 2010).

 

Referências Bibliográficas

MILLER, Jacques-Alain. Efeito do retorno à psicose ordinária. Em: Opção Lacaniana On-line, ano 1, n. 3, nov. 2010. p. 1-30. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_3/efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf>. Acesso em 19 jun. 2017.
MILLER, Jacques-Alain. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015.
MILLER, Jacques-Alain. El saber delirante. Em: Conferência 1995. Buenos Aires: Paidós, 2005.

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