“Todo el mundo es loco.” (MILLER, 2015)

Por Ângela Negreiros

Essa frase, tomada por Miller como título de seu seminário de 2007-08 e também como paradigmática do último ensino de Lacan, pode ser lida por um desavisado como um fatalismo ou um consolo diante de um impossível Normal para o humano. Ao contrário, para a psicanálise, ela remete do impossível para o possível, à invenção que cada um deve fazer a partir do encontro do insensato do puro gozo com a semente da fala. Encontro que desencontra o falante de uma verdade natural sem pensamento e o leva a forjar um sentido particular que procura, repetidamente, um porto para o gozo no tecido significante e na imagem. Isso não se faz sem percalços, certamente. Alguns nos procuram para um auxílio nesta tarefa, que pode ser pesada demais.
Acolhemos, com respeito, a invenção que foi possível a cada sujeito. Esta será sempre delirante diante de um real impossível de dizer. “Todo mundo é louco, isso é, delirante…” remete ao um a um, ao há do Um, aos inclassificáveis, à construção que cada um pode escrever. Há sempre um jeito de bordar diferente, que podemos aprender a saber fazer na transferência. Psicanalisar é tarefa dita impossível por Freud, mas que vive e sobrevive em nossos tempos sofridos de globalização do saber e comandos midiáticos de gozo que nos enganam com A verdade. Mas podemos sempre reinventar nosso ofício.

Referências:
MILLER. Jacques-Alain. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015.