Leitura de Lacan, no Seminário 20

Por Maria Silvia G. F. Hanna

“Se o inconsciente é mesmo o que eu digo, por ser estruturado como uma linguagem, é no nível da língua que temos que interrogar esse Um… o que tenho que designar hoje é muito propriamente designar de onde a coisa não só pode mas deve ser tomada por nosso discurso, e por essa renovação que traz o domínio do Eros a nossa experiência”.
(LACAN, 1972-73, p. 91)

“(…) é mesmo preciso partir disto, que esse Há Um é para ser tomado com o sotaque de que há Um sozinho. É daí que se apreende o nervo do que temos mesmo que chamar pelo nome com que a coisa retine por todo o curso dos séculos, isto é o amor”.
(LACAN, 1972,73, p. 91)

“Na análise, só lidamos com isso e não é por outra via que ela opera. Via singular, nisso que só ela permitiu destacar aquilo que, eu que lhes falo, acreditei dever suportar a transferência, no que ela não se distingue do amor, com a fórmula o sujeito suposto saber”.
(LACAN, 1972-73, p. 91)

“Falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico. (…) O que o discurso analítico nos traz (…) é que falar de amor é, em si mesmo, um gozo”.
(LACAN, 1972-73, p. 112)

Ao ler com cuidado e várias vezes esses parágrafos, perceberemos uma mudança no lugar do amor na experiência da análise. Até esse momento, a transferência – inicialmente definida por S. Freud como uma falso enlace, construída enquanto conceito ao longo de sua obra e retomada por J. Lacan inúmeras vezes durante seu ensino – ganhando mais uma precisão no Seminário, livro 20. De que se trata? Como entender isso?

Sabemos que a transferência é um amor autêntico, articulado por J. Lacan a partir do conceito do Sujeito suposto saber, no Seminário, livro 11. Essa suposição foi situada como o suporte do amor. Nesse sentido, o Sujeito suposto Saber foi apresentado como o pivô da transferência, tendo como função ordenar todos os fenômenos que emergiam nesse campo: sugestão, resistência e repetição. A fórmula do Sujeito suposto Saber apresenta uma concatenação significante que inclui o analista.

No contexto do Seminário, livro 20, J. Lacan interroga o inconsciente estruturado como uma linguagem, afirmando que este deve ser pensado a partir da alíngua, isto é, aí onde o significante se encontra em estado de dispersão, como um-sozinho. Dessa forma o inconsciente estruturado como uma linguagem passa a ser considerado como uma elucubração sobre alíngua.

A experiência analítica oferece a oportunidade, através do amor, de articular esses significantes uns. Podemos perceber que, ao dizer isso, o suporte se inverte; não é mais a suposição de saber que gera o amor e sim o amor que gera a suposição de saber: ao amá-lo, suponho um saber.

Assim, o amor é a sustentação e abertura para a concatenação dos significantes, configurando assim no horizonte um saber suposto. Em outras palavras, dizemos que o amor de transferência suporta o Sujeito suposto Saber no encontro com o analista, produzindo-se a partir deste fato, um trabalho inédito dos significantes uns, ligando uns aos outros e cavando novas fendas. Esse trabalho resulta em uma retirada do gozo das antigas prisões que gerava um sofrimento insuportável para o sujeito.

Referências:

LACAN, Jacques. (1973 [1964]) O Seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, Jacques. (1975 [1972-73]) O Seminário, livro 20 – Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.