Corpos na pólis

Por Renata Estrella

“Se meu filho um dia for professor, ele vai ensinar a minha história”

(fala de um aluno que participou das ocupações das escolas em SP, 2015)

 
Considerando-se que o mundo se vê hoje submetido à lógica do mercado, atual regulador das trocas sociais, parto da premissa de que o mercado ocuparia o lugar do Outro na atualidade, como Marcus André Vieira tem trabalhado em seu Seminário, A psicanálise do fim do mundo. O Outro do mercado aparece de forma onipresente, fugidia e que, ao mesmo tempo, dita escolhas – tudo transformado em consumo – à maneira de um imperativo categórico¹.

Neste estado da arte, tão fixados que parecemos estar em identificações, talvez como uma defesa, a forma de ciframento de gozo parece ser a da segregação, como Marie-Hélène Brousse trabalhou em 2002 em Seminário Internacional promovido pela EBP/SP. A segregação aparece em processos de auto-segregação, como a ideia de lugar de fala, por exemplo, ou nas propostas cada vez mais claras de extermínio do outro – terrorista, diferente, coxinha, petista -, demonstrando acirrada negação da alteridade em nossa cultura.

Nesse sentido, interessa ao psicanalista o movimento em curso no social, processos que nos interpretam ao trazerem problemas, soluções, invenções, novidades que podem contribuir à permanente reedição da psicanálise. Para trazer estas breves questões, parto de minha experiência em apoio às ocupações no Rio de Janeiro em março de 2016, de algumas entrevistas com os estudantes ocupas, como passaram a ser carinhosamente chamados – entre elas, a entrevista realizada por Cristina Frederico e Paula Legey, publicada na Latusa, n.21 – e do filme de Carlos Pronzato, Acabou a paz! Isto aqui vai virar o Chile! Escolas ocupadas em São Paulo – de onde vem a epígrafe deste texto.

Sobretudo a partir dos anos 2000, vemos insurgir nas ruas e espaços públicos das grandes cidades diferentes movimentos populares de ocupação inaugurados pelo famoso Occupy Wall StreetO que parece é que são movimentos de resistência que podem significar cortes no dispositivo capitalista por funcionarem de forma a impedir o controle, a padronização e a transformação dessas práticas em objetos de consumo. Assim, são práticas também fugidias, começam e terminam de forma repentina, ocupando coletivamente as ruas ou espaços públicos com o próprio corpo, às vezes com um mote, mas nem sempre e, em geral, após o início, escutamos dos ocupas muito mais que o motivo disparador daquela ocupação, como disse uma estudante no filme de Pronzato: “hoje se aprende mais política nas ruas”.

No caso dos estudantes secundaristas no Brasil, as ocupações se deram por meio das artes – performances, projeções, pinturas, shows, peças – e, ainda, de uma auto-organização nas escolas que compreendeu a estrutura física e de equipamentos, além da organização de aulas, debates, eventos, em um movimento recíproco de dentro para fora e de fora para dentro”, como disse uma estudante à Latusa, o que cria um fora e um dentro, ou seja, um rearranjo do espaço social. Cabe, então, perguntar se as ocupações produziriam uma espécie de negatividade de objeto no corpo social, criando espaços vazios, representacionais, bordas, abrindo espaço / tempo no fluxo de pessoas, de gadgets, de sentidos, mexendo com a linguagem estabelecida, como se fizessem um corte ou furo no Outro do mercado.

Nesse sentido, impressiona a crítica da grande mídia brasileira às ocupações, como se estas interrompessem o bom andamento do mundo tal como ele é, daquilo que está estabelecido como possível, como se o mundo e a cultura, a ficção de mundo que criamos, fossem desde sempre idênticos, ignorando que a cultura é construída a partir dos indivíduos. No caso das ocupações das escolas secundaristas, a questão é mais complexa, no entanto. No recorte que faço aqui, tomou-se a ideia estudantes aprendem em escolas como fato, mesmo toda a sociedade brasileira sabendo há décadas do sucateamento das escolas públicas e, ainda, mesmo após as falas dos estudantes e de seus pais de que os alunos que fizeram a ocupação estavam aprendendo muito mais após terem ocupado, talvez por se sentirem mais parte das escolas, também quando estas retornaram ao funcionamento instituído.

Assim, seria legado das ocupações uma mudança nesses alunos, em sua relação com a escola e com a sociedade? A linguagem, o simbólico, desnaturaliza o corpo do organismo que, então, incorpora a cultura. Porém, em tempos que a crise da tradição parece não garantir um lugar no Outro, pergunto se a prática das ocupações a partir dos espaços vazios criados e das possibilidades de deslocamentos aí engendradas lida com essa força estranha que escapa à formatação e insiste de forma diferente da segregação, à maneira da serpartição, neologismo que fez Lacan, pinçado por Miller em 2005, ao tratar de uma separação possível sem a intervenção do Outro. Ou, nas palavras da estudante à Latusa, ao ser perguntada sobre o que levaria da experiência: “eu tive a noção do meu corpo”.

 

¹ Para um aprofundamento desta proposta: Liégard, F. Psychanalyse do lien social et sociologie: un rencontre à élaborer. L’exemple de la délinquance juvénile contemporaine. In : Journal des Anthropologues. 116-117, 2009; Alemán, Jorge. En la Frontera – sujeto y capitalismo. El mal estar en el presente néolibéral. Conversaciones con María Victoria Gimbel. Barcelona, Gedisa Editorial, 2014.

 

Referências Bibliográficas
Brousse, M.H. O Inconsciente é a política. São Paulo: Escola Brasileira de Psicanálise, 2003.
Latusa. Rio de Janeiro: Escola Brasileira de Psicanálise Seção Rio, n.21, agosto de 2016.
Miller, J.A. “Introdução à leitura do seminário 10 da Angústia de Jacques Lacan”. Em: Opção Lacaniana, n° 43. São Paulo: Eolia, maio de 2005.

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Leituras e releituras na escola

Por Marina Sodré

O analista na cidade é aquele que tentar ler a cidade e seus sintomas (VIEIRA, 2017). Foi assim que, em uma escola municipal de Ensino Fundamental II, começamos a trabalhar com assembleia de alunos. A oferta veio da analista; uma espécie de resposta às queixas e demandas dos professores, inspirada em autores do campo da educação para quem a assembleia é um importante instrumento de democratização da escola, assim como a democratização da escola é princípio crucial no tratamento das suas mazelas. “Se a sala de aula não está dando conta da aprendizagem do aluno, a assembleia pode ser um espaço primordial de aprendizagem para ele”, defende uma professora no ‘Conselho de Classe’, fazendo-nos lembrar de Paulo Freire (1989) e de sua conhecida ideia de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra.

A analista na cidade é aquela que lê, mas também é a que faz ler, aquela que causa, no outro, leituras e releituras do mundo/cidade/escola, incluindo aí seus sintomas. Foi assim que uma assembleia girou em torno das brigas violentas entre os alunos: “conversar é mal visto, é coisa de ‘bundão’. No local onde moramos é assim, é natural brigar”. Muitas outras falas se seguem até aquela que faz uma leitura da própria assembleia, interpretando seu princípio fundamental: “meu pai sempre me falou que a língua é a nossa maior arma”.

Referências Bibliográficas

VIEIRA, Marcus André. Abertura da categoria Pólis-amores e loucuras. Em: Blog das XXV Jornadas Clínicas da EBP Rio e ICP RJ, 2017. Disponível em: https://loucuraseamores2017.wordpress.com/category/polis-amores-e-loucuras . Acesso em 25/07/2017.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.