O desmedido de Camille Claudel

Por Maria Corrêa de Oliveira

O cinema levou seu drama por duas vezes às telas.

Em 1988, com a atuação de dois consagrados atores do cinema francês, Isabelle Adjani e Gérard Depardieu, o roteiro desse primeiro filme, Camille Claudel, biográfico, versa sobre a talentosa escultora em seu processo de tornar-se uma artista em sua relação com o Outro, acompanhada dos sentimentos do amor e da paixão, extremados.

Rodin, seu mestre e objeto maior de seus desatinos, atualiza e concentra, no vínculo que estabelecem, as marcas e os restos da relação de Camille com sua conjuntura familiar: pai, mãe e irmão. Uma relação com o acento do desvario, presente em Camille Claudel.

O segundo filme, Camille Claudel 1915, conta com a força da atuação de Juliette Binoche e foca unicamente no período de confinamento de Camille, quase 30 anos, e se constrói no relato de uma vida sustentada na árida esperança do advento da liberdade.

Essas versões do cinema, sobre a vida da escultora, nos levam a sublinhar também a força e o incômodo de uma mulher que parecia estar à frente de sua época, e não faltam elementos que despertam na psicanálise o afã de, sobre eles, nos interrogarmos.

Tragada por seus modos de gozo, recolhemos em Camille duas formas de gozo possíveis: o gozo erotomaníaco, onde não há a série, “onde o objeto é menos objetal mas um objeto suporte do amor” (Miller, 2016, p.11), invariável e passível de ser localizado em múltiplos suportes desde que esses possuam os mesmos traços. E o gozo da devastação, inclassificável. A devastação nos traz a presença da depredação sem limites, de uma dor que não cessa, arrancada, apreendida violentamente e em cujo horizonte desse arrebatamento também podemos vislumbrar o êxtase. (Miller, 2016)

No entanto, se o desmedido e a loucura de Camille Claudel desembocaram na trágica sina de uma vida – o encarceramento na solidão de uma instituição psiquiátrica -, o mesmo não foi o destino de sua obra.

Eternizada em obra de arte, a criação transcende não somente sua criadora, mas sobretudo o silêncio a que foi submetida.

Sua obra permanece para a posteridade como testemunho de seu talento e, especialmente para a psicanálise, da singularidade do sintoma que dilacerou sua existência.

Embora o ímpeto seja o de buscar leituras e entendimentos nas obras de Camille – aqui faço referência às mulheres suplicantes e à onda que tudo engole, por exemplo -, grifo que, da posição psicanalítica, trata-se de zelar pela suspensão quanto ao sentido. De manter viva, radicalmente, a interrogação da dimensão de enigma que o real nos apresenta (Miller, 1996). Esse parece ser o legado de Camille, perpetuado na obra de arte.

 

 

A onda, 1897-1903
A suplicante, 1899

  

 

                                         

Referências:

MILLER. Jacques-Alain. Uma partilha sexual. Opção Lacaniana online, ano 7, número 20, 2016

MILLER. Jacques-Alain. Matemas I. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1996.

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Um amor morto

Por Ana Maria Lima

O título deste escrito, postulado por Lacan em seu Seminário 3 (1955-56), trata do amor na psicose. Onde não há a inscrição da falta, nem significado do Outro, só se pode amar um sujeito morto. Se na neurose trata-se do amor de transferência, na psicose trata-se de erotomania. Tal conceito permite fazer uma diferenciação radical entre a transferência neurótica e o amor mortificante do psicótico.

Para o psicótico uma relação amorosa é possível abolindo-o como sujeito, enquanto ela admite uma heterogeneidade radical do Outro. Mas esse amor é também um amor morto. (LACAN, 1955-56, p.289)

A erotomania aparece como uma percepção externa de ser amado e não interna de amar. Não há sujeito, há a certeza de que alguém lhe dedica amor. Segundo Lacan (1955-56), “fazem sempre alusão ao Outro com um A maiúsculo, como a um termo que está sempre presente, mas jamais visto e nomeado a não ser de maneira indireta”. Sutileza que pode ser exemplificada na diferença do uso dos pronomes pessoais: “Vocês percebem a diferença? Eu o quero, ou eu quero a ele ou a ela, não é a mesma coisa.” (LACAN, 1955-56, p. 291).

Rebeca Jimenez, aos dezessete anos, apaixonou-se por um marinheiro chamado Manuel, que partiu em uma navegação, prometendo que, ao voltar, a desposaria. A embarcação passou por uma tempestade, ninguém sobreviveu. Desde então, Rebeca passou a ir todos os dias para o porto, vestida de noiva, à espera do seu amor. Uma certeza traçou seu destino: ele voltaria e ela estaria portando um signo, o vestido de noiva, para que, segundo ela, “ele pudesse reconhecê-la”.

Rebeca, a partir de um encontro com o Real, na perda do objeto de amor, produziu um delírio, e nos traz sinais sobre o funcionamento de um amor “morto” na psicose.

Ocupou-se vendendo doces no porto, e repetia sua história para quem a abordasse. Certo dia, a população tentou demovê-la a um manicômio, e ela disse que, dali, não poderia sair, porque seu corpo se “enraizara junto ao mar”. Fenômeno de um despedaçamento do corpo que a fixou junto ao mar; um signo do infinito de seu delírio com tonalidades místicas. Rebeca ficou conhecida como La Loca de San Blás, tornou-se um símbolo da espera do amor, fez da sua vida, até os sessenta e três anos, esta expectativa. Sua saga rendeu uma música conhecida internacionalmente e suas cinzas foram jogadas no mar.

Referências

LACAN, Jacques. (1955-56) O Seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

De como a transferência pode evitar a erotomania

Por Sandra Viola

Si consideramos el predominio de este aspecto del vacio de la significacíon de la experiencia amorosa, podemos formular una primera pregunta de la siguiente manera: el valor enigmático del amor tiene alguna repercusión sobre lo que es una modalidad especial de la significación, a saber, la transferencia? Cuales son los elementos concernientes a la dirección de la cura que impidieron que el sujeto se declarara una erotomania en la relacción transferencial?

(MILLER, 2006, p. 115)

O enigma se reconhece como o comparecimento de um ou mais significantes que querem dizer alguma coisa, fazendo surgir uma significação. Sabemos que o valor enigmático do amor tem efeitos sobre a modalidade especial de significação que é a transferência. Numa neurose, a fantasia é o recurso de que o sujeito se vale para se haver com o enigmático encontro com o Outro. Como responder a isto numa psicose? E ainda, como evitar que o sujeito se instale numa erotomania transferencial?

No livro El amor en las psicosis (MILLER [dir.], 2006), Jésus Santiago comenta um caso clínico trabalhado por Nicole Gueil, intitulado “A lógica do celibato”, precioso para aprendermos sobre o amor transferencial e a erotomania numa psicose. Nicole demonstra muito bem que o manejo do analista, privilegiando o trabalho do significante em detrimento do enigma do encontro amoroso evitou o desencadeamento de uma erotomania e possibilitou ao sujeito certo arranjo com o sinthoma.

Referências:

MILLER, Jacques-Alain [dir.]. El amor en las psicosis. Paidós: Buenos Aires, 2006.