Um amor morto

Por Ana Maria Lima

O título deste escrito, postulado por Lacan em seu Seminário 3 (1955-56), trata do amor na psicose. Onde não há a inscrição da falta, nem significado do Outro, só se pode amar um sujeito morto. Se na neurose trata-se do amor de transferência, na psicose trata-se de erotomania. Tal conceito permite fazer uma diferenciação radical entre a transferência neurótica e o amor mortificante do psicótico.

Para o psicótico uma relação amorosa é possível abolindo-o como sujeito, enquanto ela admite uma heterogeneidade radical do Outro. Mas esse amor é também um amor morto. (LACAN, 1955-56, p.289)

A erotomania aparece como uma percepção externa de ser amado e não interna de amar. Não há sujeito, há a certeza de que alguém lhe dedica amor. Segundo Lacan (1955-56), “fazem sempre alusão ao Outro com um A maiúsculo, como a um termo que está sempre presente, mas jamais visto e nomeado a não ser de maneira indireta”. Sutileza que pode ser exemplificada na diferença do uso dos pronomes pessoais: “Vocês percebem a diferença? Eu o quero, ou eu quero a ele ou a ela, não é a mesma coisa.” (LACAN, 1955-56, p. 291).

Rebeca Jimenez, aos dezessete anos, apaixonou-se por um marinheiro chamado Manuel, que partiu em uma navegação, prometendo que, ao voltar, a desposaria. A embarcação passou por uma tempestade, ninguém sobreviveu. Desde então, Rebeca passou a ir todos os dias para o porto, vestida de noiva, à espera do seu amor. Uma certeza traçou seu destino: ele voltaria e ela estaria portando um signo, o vestido de noiva, para que, segundo ela, “ele pudesse reconhecê-la”.

Rebeca, a partir de um encontro com o Real, na perda do objeto de amor, produziu um delírio, e nos traz sinais sobre o funcionamento de um amor “morto” na psicose.

Ocupou-se vendendo doces no porto, e repetia sua história para quem a abordasse. Certo dia, a população tentou demovê-la a um manicômio, e ela disse que, dali, não poderia sair, porque seu corpo se “enraizara junto ao mar”. Fenômeno de um despedaçamento do corpo que a fixou junto ao mar; um signo do infinito de seu delírio com tonalidades místicas. Rebeca ficou conhecida como La Loca de San Blás, tornou-se um símbolo da espera do amor, fez da sua vida, até os sessenta e três anos, esta expectativa. Sua saga rendeu uma música conhecida internacionalmente e suas cinzas foram jogadas no mar.

Referências

LACAN, Jacques. (1955-56) O Seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

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