Letras, Amores e Dissabores

Por Isabel Lins

O que une a literatura à psicanálise é a letra. No meio desse caminho está não a pedra… mas, o Amor. As cartas de amor! Letras.

O amor faz suplência a uma relação que não existe: a relação sexual. Mas são, justamente, a letra, a carta, a escrita, que podem suspender o real dessa não existência. É o amor – objeto desses endereçamentos, que fazendo suplência ao real, convoca aquele em todas suas variantes, como variaram os títulos do filme que mencionarei a seguir. As declinações do amor são infindáveis, inesgotáveis, há sempre presente um… Mais… Ainda. O amor não para de demandar – é a própria demanda. Joyce, na ausência de sua Nora, assim se queixava: “Amor, amor, amor, por que me deixaste tão só?” (Dedicatória de Joyce a Nora no livro de poesias “Música de Câmera”, Primeiro livro publicado pelo autor, 1907).

Lacan nos adverte em Le Savoir du psychanlyte, Sem. 1971-72. (Publication hors commerce. Document interne à l’Association Freudienne Internationale et destiné à ses membres, sans date, page 56.) que “O melhor que há nesse impulso que se chama amor é a carta, a letra que pode tomar formas estranhas” (Idem p. 57).

“Amar foi minha ruína”, filme rodado em 1945, teve a direção de John Stahl, estrelado por Gene Tierney – que ganhou o Oscar de melhor atriz -, Cornel Wilde, Vincent Price e Jeanne Crain, entre outros. Interessante notar como seu título, no original, “Leave her to heaven”, foi sendo traduzido nas diversas línguas, conforme o país onde era exibido: “Amar foi minha perdição” (Portugal), “Amar foi minha ruína” (Brasil), “Peché mortel” (França), “Femmina Folle” (Itália), etc. Títulos esses não conforme ao original, mas todos guardando referência ao amor, seja este, como no caso, um amor absolutamente possessivo, exclusivo, narcisista. O amor é plural, conjuga-se em todas as pessoas, expande-se por entre mares e oceanos, ou, como canta Rita Lee na canção Amor E Sexo (letra de Arnaldo Jabor, musicada por Rita Lee), “Amor é prosa, sexo é poesia”.

Considerado, à época, filme noir ou de suspense, “Amar foi minha ruína” saiu conquistando inúmeros prêmios. Femmina, pecado mortal, ruína, perdição, céu…

Letras de amor! É que nada esgota os dizeres do amor. Lembremo-nos da canção de Chico: “O que será que será? O que não tem fim, nem nunca terá…”

À medida que Stéphane Mallarmé escrevia Herodias, personagem-título de um dos seus mais belos poemas, ia lhe dando vida, “humanizando-a”, dando-lhe corpo, a tal ponto que se identificou a ela, que dela não mais pôde prescindir. Herodias, agora, não mais personagem. Herodias-mulher leva o poeta a sofrer todos os avatares que uma paixão amorosa proporciona. Atingido no seu ser, deixa por anos de escrever, absolutamente siderado e paralisado por Herodias, fruto de sua criação. Tomou a personagem ao pé de sua letra.

Numa das “Cartas Portuguesas” de Soror Mariana Alcoforado, há uma epígrafe com esse dizer: “Uma obra de arte ou de literatura, ainda quando muito perfeita, não passa de uma cópia da vida: as cartas são a própria vida” (Epígrafe da Primeira Carta, 2a edição, setembro 2004, p. 10), Paléologue.

Ao se referir a este livro, Saint Simon classifica o amor uni-presente na obra como “um amor desconforme” (Epígrafe da Terceira Carta, p. 38).

Na 5a carta, Soror Alcoforado escreve ao amado: “amei-o como louca! O desprezo que tive por todas as coisas!” (2004, p. 83). Adoecida por esse amor pouco correspondido, a autora das cartas assim se lamenta ao amado: “Que fiz eu para ser tão desgraçada? Por que envenenaste a minha vida?” (2004, p. 93).

Afinal de contas, sabemos que no entender de Lacan, ao comparar amor e desejo, ele situa o gozo feminino do lado do amor; por isso, as mulheres superestimam tanto o amor e seu cortejo: declarações, falas, cartas, serenatas… promessas!

Um homem negar amor a uma mulher pode ser devastador para esta; é disso que se trata nessas Cartas Portuguesas.

Mais… ainda, palavras de Lacan: “Falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico (…) O que o discurso analítico nos traz (…) é que falar de amor é, em si, um gozo” (LACAN, 1972-73, p. 112). Sem o AMOR, nada feito.

 

Referências
ALCOFORADO, Soror Mariana. Cartas Portuguesas, Livro de Bolso Publicações Europa- América. 2004
ATTIÉ, Joseph. Mallarmé o Livro – Estudo Psicanalítico, Forense Universitária. 2013. (As referências ao Poema Herodias de Stéphane Mallarmé e à crise que seguiu estão no livro supracitado, pp 31-43.)
JOYCE, James. “Música de Câmera”, 1907
JABOR, Arnaldo. “Amor e Sexo” cantado por Rita Lee.
LACAN, Jacques. Le Seminaire Livre XX Encore, Seuil, 1972-1973
LACAN, Jacques. Le Savoir du psychanlyte, Sem. 1971-72 (Publication hors commerce. Document interne à l’Association Freudienne Internationale et destiné à ses membres, sans date).

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O desmedido de Camille Claudel

Por Maria Corrêa de Oliveira

O cinema levou seu drama por duas vezes às telas.

Em 1988, com a atuação de dois consagrados atores do cinema francês, Isabelle Adjani e Gérard Depardieu, o roteiro desse primeiro filme, Camille Claudel, biográfico, versa sobre a talentosa escultora em seu processo de tornar-se uma artista em sua relação com o Outro, acompanhada dos sentimentos do amor e da paixão, extremados.

Rodin, seu mestre e objeto maior de seus desatinos, atualiza e concentra, no vínculo que estabelecem, as marcas e os restos da relação de Camille com sua conjuntura familiar: pai, mãe e irmão. Uma relação com o acento do desvario, presente em Camille Claudel.

O segundo filme, Camille Claudel 1915, conta com a força da atuação de Juliette Binoche e foca unicamente no período de confinamento de Camille, quase 30 anos, e se constrói no relato de uma vida sustentada na árida esperança do advento da liberdade.

Essas versões do cinema, sobre a vida da escultora, nos levam a sublinhar também a força e o incômodo de uma mulher que parecia estar à frente de sua época, e não faltam elementos que despertam na psicanálise o afã de, sobre eles, nos interrogarmos.

Tragada por seus modos de gozo, recolhemos em Camille duas formas de gozo possíveis: o gozo erotomaníaco, onde não há a série, “onde o objeto é menos objetal mas um objeto suporte do amor” (Miller, 2016, p.11), invariável e passível de ser localizado em múltiplos suportes desde que esses possuam os mesmos traços. E o gozo da devastação, inclassificável. A devastação nos traz a presença da depredação sem limites, de uma dor que não cessa, arrancada, apreendida violentamente e em cujo horizonte desse arrebatamento também podemos vislumbrar o êxtase. (Miller, 2016)

No entanto, se o desmedido e a loucura de Camille Claudel desembocaram na trágica sina de uma vida – o encarceramento na solidão de uma instituição psiquiátrica -, o mesmo não foi o destino de sua obra.

Eternizada em obra de arte, a criação transcende não somente sua criadora, mas sobretudo o silêncio a que foi submetida.

Sua obra permanece para a posteridade como testemunho de seu talento e, especialmente para a psicanálise, da singularidade do sintoma que dilacerou sua existência.

Embora o ímpeto seja o de buscar leituras e entendimentos nas obras de Camille – aqui faço referência às mulheres suplicantes e à onda que tudo engole, por exemplo -, grifo que, da posição psicanalítica, trata-se de zelar pela suspensão quanto ao sentido. De manter viva, radicalmente, a interrogação da dimensão de enigma que o real nos apresenta (Miller, 1996). Esse parece ser o legado de Camille, perpetuado na obra de arte.

 

 

A onda, 1897-1903
A suplicante, 1899

  

 

                                         

Referências:

MILLER. Jacques-Alain. Uma partilha sexual. Opção Lacaniana online, ano 7, número 20, 2016

MILLER. Jacques-Alain. Matemas I. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1996.

Comentário ao texto “Palabras Preliminares” (MILLER, 2006)

Por Vanda Assumpção Almeida

     El amor en las psicosis nos enseña sobre el amor en general… Ó será por último que, el sujeto psicótico no ama, sino su delirio, según lo expresado por Freud?…las psicosis pueden entonces enseñarnos mucho sobre esa locura común que es el amor y sobre la transferencia. (MILLER, 2006, p.11)

Darei no texto dois pontos que podem nos ajudar a pensar sobre as questões do amor. Primeiramente, o fato de que “o amor é sempre narcísico” (MILLER, 2006, p.10) e, depois, a relação de proximidade que há entre o amor e a loucura, tal qual assinalada por Miller.

No que se refere à psicose, o narcisismo se pronuncia através da erotomania, no delírio erotômano, que vem servir de defesa ao que vem do Outro, uma vez que a metáfora simbólica do Nome do Pai está foracluída. Desse modo, o que vem do campo do Outro é ameaçador para o sujeito psicótico, e seu delírio é o recurso de que dispõe para dar conta do real. Seria preciso que a castração simbólica estivesse inscrita, sendo essa a condição de possibilidade para fazer barreira ao que vem do outro real como algo ilimitado. Miller destaca que o amor na psicose, segundo Lacan, é “um amor morto” (2006, p.10), ou seja, “mais que em qualquer outra parte o sujeito só ama a si mesmo, ou um ideal pelo qual substitui a realidade do parceiro” (2006, p.11), o que nos leva a indicar que a observação de Freud quanto ao amor para o sujeito psicótico é de que “ele não ama senão o seu delírio” (2006, p.11).

Inversamente, podemos dizer que “amar é antes de tudo querer ser amado” (MILER, 2006, p.11), mesmo que seja às expensas de se fazer objeto do outro no amor. Tal fato pode nos demonstrar o que afirma Miller, que entre o amor e a loucura há um limite tênue, à diferença de que estar na posição de falo do Outro, como consequência do narcisismo, tem resultados distintos para o sujeito psicótico, como demonstrado por Freud e Lacan nos casos Schreber e Aimée.

E quanto ao amor de transferência? Trata-se de um amor que traz as marcas, o traço de um amor passado, de uma experiência vivida. Desse modo, é dessa experiência que o sujeito estabelece o laço transferencial com o outro. Será o início de um tratamento que poderá levar ao que, na psicanálise, designamos como novo amor.

E quanto à psicose, o que tem Miller a dizer? Ele traz à luz a capacidade de invenção do analista, o que implica que este possa permitir o deslocamento das insígnias significantes para que a transferência se dê e, através da sua escuta, possa recolher os detritos da língua passíveis de se tornarem novas invenções, não mais de ordem ameaçadora, mas que apontem na direção de um novo amor.

Referências
MILLER, Jacques-Alain et al. Palabras Preliminares. Em: El amor en las Psicosis. Buenos-Aires: Paidós, 2006, p. 9-12.

Desatino! nº 2 – Boletim das XXV Jornadas

Olá pessoal!

Reservamos o Boletim Desatino #2 especialmente para divulgar a programação de nossas XXV Jornadas!

Nela, vocês já podem ter um panorama de como se desdobrarão esses dois intensos dias de trabalho.

Para esquentar os tamborins, a comissão científica organizou quatro cursos para a manhã da sexta-feira. Trabalhando em duplas, membros da seção Rio discutirão casos clínicos e testemunhos de passe publicados.

Após o almoço, as Jornadas começam com a riqueza da conversação clínica do ICP-RJ, e seguem com a Primeira Plenária onde o testemunho de passe de Maria Josefina Sota Fuentes será comentado por nossa convidada da ELP de Barcelona, Araceli Fuentes.

A manhã do sábado será dedicada à apresentação de trabalhos nas mesas simultâneas, que mais adiante divulgaremos detalhadamente. À tarde, teremos mais duas Plenárias que prometem e, para finalizar, será com grande prazer que escutaremos a Conferência de Araceli Fuentes!

À noite é chegada a hora de amar e enlouquecer com a nossa festa!

Na programação, vocês também encontram os temas das plenárias e os colegas que comporão essas mesas.

Organizem-se, desde já, para participarem desse importante encontro de nossa comunidade analítica!

Com entusiasmo,
Comissão de Divulgação e Mídia

 

XXV Jornadas Clínicas EBP Rio / ICP-RJ
Loucuras e amores na psicanálise

Sexta feira, dia 10 de novembro de 2017

9:00 às 11:00
Cursos

12:00 às 13:00
Credenciamento

13:00 às 13:30
Abertura
Angela Bernardes
Angela Batista

13:30 às 16:30
Conversação Clínica do ICP-RJ

17:00 às 18:30
Primeira plenária
Testemunho de AE: Maria Josefina Sota Fuentes
Comentários: Araceli Fuentes
Coordenação: Márcia Zucchi

19:00
Brinde

Sábado, dia 11 de novembro de 2017

9:00 às 12:30
Mesas simultâneas

12:30 às 14:00
Intervalo para almoço

14:00 às 15:30
Segunda plenária
“Todo mundo é louco, isto é, delirante”
Marcus André Vieira
Maria Silvia Hanna
Coordenação: Ana Tereza Groisman

15:30 às 17:00
Terceira plenária
“Só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”
Romildo do Rêgo Barros
Ruth Cohen
Coordenação: Glória Maron

18:00 às 19:00
Conferência de Araceli Fuentes: Un amor puesto a prueba de lo real
Coordenação:  Fernando Coutinho

19:00 às 19:30
Encerramento
Andréa Reis Santos
Paula Borsoi

20:00
Festa

Um amor morto

Por Ana Maria Lima

O título deste escrito, postulado por Lacan em seu Seminário 3 (1955-56), trata do amor na psicose. Onde não há a inscrição da falta, nem significado do Outro, só se pode amar um sujeito morto. Se na neurose trata-se do amor de transferência, na psicose trata-se de erotomania. Tal conceito permite fazer uma diferenciação radical entre a transferência neurótica e o amor mortificante do psicótico.

Para o psicótico uma relação amorosa é possível abolindo-o como sujeito, enquanto ela admite uma heterogeneidade radical do Outro. Mas esse amor é também um amor morto. (LACAN, 1955-56, p.289)

A erotomania aparece como uma percepção externa de ser amado e não interna de amar. Não há sujeito, há a certeza de que alguém lhe dedica amor. Segundo Lacan (1955-56), “fazem sempre alusão ao Outro com um A maiúsculo, como a um termo que está sempre presente, mas jamais visto e nomeado a não ser de maneira indireta”. Sutileza que pode ser exemplificada na diferença do uso dos pronomes pessoais: “Vocês percebem a diferença? Eu o quero, ou eu quero a ele ou a ela, não é a mesma coisa.” (LACAN, 1955-56, p. 291).

Rebeca Jimenez, aos dezessete anos, apaixonou-se por um marinheiro chamado Manuel, que partiu em uma navegação, prometendo que, ao voltar, a desposaria. A embarcação passou por uma tempestade, ninguém sobreviveu. Desde então, Rebeca passou a ir todos os dias para o porto, vestida de noiva, à espera do seu amor. Uma certeza traçou seu destino: ele voltaria e ela estaria portando um signo, o vestido de noiva, para que, segundo ela, “ele pudesse reconhecê-la”.

Rebeca, a partir de um encontro com o Real, na perda do objeto de amor, produziu um delírio, e nos traz sinais sobre o funcionamento de um amor “morto” na psicose.

Ocupou-se vendendo doces no porto, e repetia sua história para quem a abordasse. Certo dia, a população tentou demovê-la a um manicômio, e ela disse que, dali, não poderia sair, porque seu corpo se “enraizara junto ao mar”. Fenômeno de um despedaçamento do corpo que a fixou junto ao mar; um signo do infinito de seu delírio com tonalidades místicas. Rebeca ficou conhecida como La Loca de San Blás, tornou-se um símbolo da espera do amor, fez da sua vida, até os sessenta e três anos, esta expectativa. Sua saga rendeu uma música conhecida internacionalmente e suas cinzas foram jogadas no mar.

Referências

LACAN, Jacques. (1955-56) O Seminário, livro 3: As psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

De como a transferência pode evitar a erotomania

Por Sandra Viola

Si consideramos el predominio de este aspecto del vacio de la significacíon de la experiencia amorosa, podemos formular una primera pregunta de la siguiente manera: el valor enigmático del amor tiene alguna repercusión sobre lo que es una modalidad especial de la significación, a saber, la transferencia? Cuales son los elementos concernientes a la dirección de la cura que impidieron que el sujeto se declarara una erotomania en la relacción transferencial?

(MILLER, 2006, p. 115)

O enigma se reconhece como o comparecimento de um ou mais significantes que querem dizer alguma coisa, fazendo surgir uma significação. Sabemos que o valor enigmático do amor tem efeitos sobre a modalidade especial de significação que é a transferência. Numa neurose, a fantasia é o recurso de que o sujeito se vale para se haver com o enigmático encontro com o Outro. Como responder a isto numa psicose? E ainda, como evitar que o sujeito se instale numa erotomania transferencial?

No livro El amor en las psicosis (MILLER [dir.], 2006), Jésus Santiago comenta um caso clínico trabalhado por Nicole Gueil, intitulado “A lógica do celibato”, precioso para aprendermos sobre o amor transferencial e a erotomania numa psicose. Nicole demonstra muito bem que o manejo do analista, privilegiando o trabalho do significante em detrimento do enigma do encontro amoroso evitou o desencadeamento de uma erotomania e possibilitou ao sujeito certo arranjo com o sinthoma.

Referências:

MILLER, Jacques-Alain [dir.]. El amor en las psicosis. Paidós: Buenos Aires, 2006.

Leitura de Lacan, no Seminário 20

Por Maria Silvia G. F. Hanna

“Se o inconsciente é mesmo o que eu digo, por ser estruturado como uma linguagem, é no nível da língua que temos que interrogar esse Um… o que tenho que designar hoje é muito propriamente designar de onde a coisa não só pode mas deve ser tomada por nosso discurso, e por essa renovação que traz o domínio do Eros a nossa experiência”.
(LACAN, 1972-73, p. 91)

“(…) é mesmo preciso partir disto, que esse Há Um é para ser tomado com o sotaque de que há Um sozinho. É daí que se apreende o nervo do que temos mesmo que chamar pelo nome com que a coisa retine por todo o curso dos séculos, isto é o amor”.
(LACAN, 1972,73, p. 91)

“Na análise, só lidamos com isso e não é por outra via que ela opera. Via singular, nisso que só ela permitiu destacar aquilo que, eu que lhes falo, acreditei dever suportar a transferência, no que ela não se distingue do amor, com a fórmula o sujeito suposto saber”.
(LACAN, 1972-73, p. 91)

“Falar de amor, com efeito, não se faz outra coisa no discurso analítico. (…) O que o discurso analítico nos traz (…) é que falar de amor é, em si mesmo, um gozo”.
(LACAN, 1972-73, p. 112)

Ao ler com cuidado e várias vezes esses parágrafos, perceberemos uma mudança no lugar do amor na experiência da análise. Até esse momento, a transferência – inicialmente definida por S. Freud como uma falso enlace, construída enquanto conceito ao longo de sua obra e retomada por J. Lacan inúmeras vezes durante seu ensino – ganhando mais uma precisão no Seminário, livro 20. De que se trata? Como entender isso?

Sabemos que a transferência é um amor autêntico, articulado por J. Lacan a partir do conceito do Sujeito suposto saber, no Seminário, livro 11. Essa suposição foi situada como o suporte do amor. Nesse sentido, o Sujeito suposto Saber foi apresentado como o pivô da transferência, tendo como função ordenar todos os fenômenos que emergiam nesse campo: sugestão, resistência e repetição. A fórmula do Sujeito suposto Saber apresenta uma concatenação significante que inclui o analista.

No contexto do Seminário, livro 20, J. Lacan interroga o inconsciente estruturado como uma linguagem, afirmando que este deve ser pensado a partir da alíngua, isto é, aí onde o significante se encontra em estado de dispersão, como um-sozinho. Dessa forma o inconsciente estruturado como uma linguagem passa a ser considerado como uma elucubração sobre alíngua.

A experiência analítica oferece a oportunidade, através do amor, de articular esses significantes uns. Podemos perceber que, ao dizer isso, o suporte se inverte; não é mais a suposição de saber que gera o amor e sim o amor que gera a suposição de saber: ao amá-lo, suponho um saber.

Assim, o amor é a sustentação e abertura para a concatenação dos significantes, configurando assim no horizonte um saber suposto. Em outras palavras, dizemos que o amor de transferência suporta o Sujeito suposto Saber no encontro com o analista, produzindo-se a partir deste fato, um trabalho inédito dos significantes uns, ligando uns aos outros e cavando novas fendas. Esse trabalho resulta em uma retirada do gozo das antigas prisões que gerava um sofrimento insuportável para o sujeito.

Referências:

LACAN, Jacques. (1973 [1964]) O Seminário, livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LACAN, Jacques. (1975 [1972-73]) O Seminário, livro 20 – Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.