Desatino! n°4 – Boletim das XXV Jornadas

Olá pessoal,

Nossas XXV Jornadas se aproximam e as comissões trabalham cheias de fôlego preparando o intenso trabalho que se delineia passo a passo.

O Boletim Desatino! #4 traz as recentes colaborações de nossa comunidade nas diferentes categorias:

Na categoria Orientação ponto a ponto, temos os textos “Um sonho de Freud ou uma tese de Lacan?” de Ruth  Helena P. Cohen e o “O Real e o Sentido – Comentário de texto” por Eliana Bentes. A categoria Escavações do ICP foi enriquecida com mais uma contribuição. Thereza De Felice nos oferece “Um comentário sobre a exposição Porque yo escribo”, da artista plástica argentina Mirtha Dermisache. Apresentando o trabalho do analista na cidade, a Categoria Pólis-amores e loucuras está com três novos textos: “Pólis de poli-amores” de Clarisse Boechat, “Que Legado!!” por Fátima Pinheiro e “O amor de transferência em resposta à loucura da norma: uma experiência de psicanálise em extensão” de Andrea Villanova. Na Categoria Todo Mundo Lê contamos com a resenha do texto “Efeito de retorno à psicose ordinária” de Vicente Machado Gaglianone. Boa leitura!

 

Novidades no blog!

Em setembro inauguramos a Categoria Todo Mundo Vê, onde as contribuições apreendidas a partir do que se pode ver são bem-vindas! Filmes, séries, peças teatrais, pinturas e exposições são o ponto de partida para diferentes testemunhos experimentados no encontro com as diversas expressões da arte. Para essa nova categoria recebemos o texto de Maria Corrêa de Oliveira “O desmedido de Camille Claudel”, uma reflexão extraída de dois filmes sobre a escultora.

As playlists estão bombando no Spotify! Em ritmo de loucuras e amores, não deixam ninguém ficar parado. A Comissão de Divulgação e Mídia preparou novas playlists para irmos entrando no ritmo das nossas Jornadas. Tem para todos os gostos! No blog das Jornadas, basta clicar nos links “notas de loucura e amor” e curtir nossas seleções: Para inspirar, Para delirar, Para se acabar e a mais recente Para sambistas e chorões.

Nossa festa está em ritmo de frenéticos preparativos para bombar no encerramento dos trabalhos. O local, o Espaço Reduto, é uma linda casa localizada a 2 minutos a pé do Pró-Saber. Venha amar e enlouquecer com a gente! Acesse o blog https://loucuraseamores2017.wordpress.com/festa/ e tenha todas as informações sobre essa noite que promete ser de total desatino!

Para se inscrever nas XXV Jornadas, ligue para a secretaria da EBP Rio (2539-0960) ou do ICP RJ (2286-7993). Curta a página da EBP Rio no Facebook, confirme a presença no evento das XXV Jornadas e siga nosso Instagram, @loucuraseamores2017. Esperamos você!

Comissão de Divulgação e Mídia

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O amor de transferência em resposta à loucura da norma: uma experiência de psicanálise em extensão

Por Andrea Villanova

A leitura a que somos convocados a partir de nossas inserções institucionais, onde nos aplicamos como analistas, opera sobre nós mesmos efeitos de orientação. Como destaca Laurent em a Sociedade do Sintoma, trata-se de elevarmos o sintoma ao estatuto de bússola para nossa orientação. Vale lembrar que o sintoma freudiano, introduzido na cultura como signo do que não se adequa, do que resiste à normatização, encontra em Lacan a formalização que nos oferece desdobramentos cruciais para a leitura de seus elementos constitutivos: saber e gozo. Tomar o sintoma como instrumento vai além da experiência da condução de análises individuais. O modo como cada sujeito vive o sintoma é singular, mas sua estrutura pode ser amplificada para a leitura de fenômenos da cultura.

É a partir da abordagem do sintoma que venho balizando uma prática de supervisão com residentes médicos. Diante da loucura da normatização e da adicção preconizadas pelo mestre contemporâneo, a posição do médico vem sofrendo transformações, como Lacan já nos advertia nos anos 60. O que está em jogo na posição do clínico? O que ela suscita? Como pensar o sintoma nesta perspectiva? Promovendo um curto-circuito na demanda de “supervisão em psicoterapia”, venho promovendo um trabalho orientado pela psicanálise, dirigido à abordagem dos impasses na prática clínica dos residentes, apostando na leitura de sua posição, de cada um deles, frente ao manejo dos casos na clínica psiquiátrica. O resultado tem sido uma abertura entusiasmada ao estudo de Freud e Lacan como possibilidade de retomada dos fundamentos da própria clínica, negligenciados na era dos DSMs. Cabe ressaltar o efeito de surpresa do encontro, a descoberta do amor de transferência como instrumento e não como resíduo a ser eliminado.

Referências:
Lacan, J. Psicoanálisis y medicina. Buenos Aires: Manantial, 1985.

Laurent, E. A sociedade do sintoma – a psicanálise hoje. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2007.

Um comentário sobre a exposição Porque ¡yo escribo!

Por Thereza De Felice

Que lugar para uma escrita no mundo, se não for pelo imaginário, comunicável e compartilhável?
Os caminhos trilhados por Lacan, da instância da letra aos litorais de Lituraterra, os testemunhos de passe, com seus neologismos, letras e outros modos de escrita, e algumas invenções artísticas que se aproximam dessas rasuras, são jeitos que encontramos para tentar responder a esta pergunta.
A exposição Porque ¡yo escribo!, de curadoria de Agustin Pérez Rubio, em cartaz no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires – MALBA até o dia 9 de outubro, apresenta o instigante trabalho de caligrafia da artista argentina Mirtha Dermisache, bem como páginas de seus diários e trocas de cartas – em especial com Roland Barthes, interlocutor interessado na “escrita ilegível” de Mirtha.
Vemos em sua obra um trabalho com a letra que explode o sentido; desenha uma escrita sem que predomine qualquer significado. Esses traços parecem se assemelhar com os traços de uma letra-litoral, onde uma fração de gozo comparece num espaço entre real e simbólico, totalmente esvaziado de imaginário.
Acompanhamos, na exposição, um relato de Mirtha sobre o lugar de sua escrita. Um (não)lugar solitário, associado ao que chama de uma loucura desta escrita, loucura estampada por sua incompatibilidade com os sentidos e significantes prévios do mundo. A escrita desta artista carrega com força a presença do gesto, do “singular da mão que esmaga o universal”, como diz Lacan da caligrafia japonesa em Lituraterra (1971, p.20). Suas linhas capturam o olhar do espectador, não por um suposto sentido da escrita, mas por fisgar ali um real. Seu fazer com a letra, ela o traduz de modo afirmativo: “eu escrevo”.

“Desde hace unos meses pienso que en mi trabajo estoy demasiado sola.
A veces (a raíz de esto) pienso q’ la meta (a pesar mío) será algo así como la locura. (O porq’ no?, la locura).
Ni siquiera leo ni libros, ni diários ni revistas. Ni estudio nada. Ni me pienso con grupos que ‘hagan algo’, cosa que parece ser muy importante en este momento en esta ciudad y especialmente para la gente del ‘corto circuito’¹.
Todos de alguna manera pertenecen a ‘algo’. Y yo, no es que no quiera, pero me siento no perteneciendo a nada en especial (ahora pienso q’ de una forma, diría: casi lamentable//, tengo una manera rara de pertenecer a todo).
En el nivel del trabajo, mis cosas son totalmente rechazas (con algunas excepciones) por los que escriben². Por supuesto, ya hace tiempo que ni menciono el :- yo… escribo…-
Quizás algún otro día siga con todo esto.
Junio de 1971.

¹ Bario Norte y alredores
² Por los q’ no escriben también…”

 

 

Referências Bibliográficas:
LACAN, J. (2003[1971]) Lituraterra. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
RUBIO, A. P. (curador) Exposição “Porque ¡yo escribo!” – Mirtha Dermisache. Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, 2017.

Desatino! Extra – Boletim das XXV Jornadas

Atenção!!!

Novo prazo para envio de trabalhos:
Domingo, 08 de outubro de 2017.
Confira no blog https://loucuraseamores2017.wordpress.com os eixos temáticos de nossas Jornadas:

  1. Parcerias: O que há?
  2. A transferência: entre o amor e o saber
  3. Sobre o uso do diagnóstico: da classificação à singularidade
  4. Violência e amor

Você já enviou seu trabalho? Aproveite a oportunidade de apresentar suas contribuições e não perca a nova data!

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Curta a página da EBP Rio no Facebook, confirme presença no evento das XXV Jornadas e siga nosso Instagram, @loucuraseamores2017.
Esperamos você!

 
Comissão de Divulgação e Mídia

Que Legado!!!

Por Fátima Pinheiro

Esse texto é um pequeno testemunho de uma experiência de curadoria, minha e de Flávia Trocoli*, realizada com o propósito de criar um laço entre a arte, a política e a psicanálise na cidade, em uma ocupação denominada Que Legado, sob coordenação de Natasha Coberlino e Breno Sanches, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro durante três semanas, no período de 23.03 a 09.04 deste ano, no Castelinho do Flamengo. Que Legado é uma ocupação cultural para diálogos múltiplos no mapa do Rio de Janeiro e que não só movimentou a cidade durante quase um mês, como também fez soprar uma “lufada de ar” quebrando certa estagnação que pairava no ar  da cidade frente ao  desmonte de políticas públicas para a cultura, educação, saúde e à falta de representatividade da população nas ações políticas e culturais do estado e do município do Rio de Janeiro. Esta ocupação desenvolveu intensas e importantes atividades de exposições, cinema, dança, teatro, música, ciclos de psicanálise, literatura, performance, curso sobre o histórico de resistência das favelas no RJ, debates sobre micropolítica, orçamento público e mídias alternativas, com a atuação de mais de duzentos artistas/pensadores/articuladores/produtores/professores.

Convidamos para o Ciclo sobre política, arte e psicanálise, sob nossa curadoria, realizado durante três semanas consecutivas, dois artistas e uma psicanalista: Xico Chaves [artista visual e poeta], Alberto Pucheu [poeta] e Ana Cristina Figueiredo [psicanalista], para que fizessem uma leitura singular da frase: “Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu” (FREUD, [1913]1996, p. 160), colocando em jogo um “saber fazer” diante do impossível frente às três modalidades propostas por Freud: psicanalisar, educar e governar. Esta frase retomada por Freud do Fausto de Goethe, em Totem e Tabu, remete diretamente à apropriação de um legado. Trata-se da transmissão de uma herança. Esta frase é recolhida de um livro que versa sobre um pai assassinado, cujo resultado é a própria instauração da cultura.

Lacan (1969) sustenta que a função do pai na constituição de um sujeito implica no irredutível de uma transmissão. Diante disso, interrogamos: Como conquistar isso que herdamos do Outro? Como torná-lo um pouco mais “nosso”? Como articular o campo da psicanálise com o da política? Perguntas que, mais do que apontar saídas, criaram portas de entrada para novas iniciativas e ideias. Acreditamos que a arte pode ser o artifício que possibilita enlaçar campos tão heterogêneos. Há um “fazer aí” que pode participar da invenção, produzir sinthoma, permitindo fabricar uma escrita do nó. Essa é a aposta que endereçamos à cidade, àqueles que a habitam. E o poema de Alberto Pucheu é a agulha fina que em um leve movimento de “vai e vem” desenha o laço.

apesar de tudo, o impossível
apesar de tudo o que querem, apesar
de tudo já ter sido dito, é preciso dizer
que tudo ainda está por se dizer,
que estou aqui, mais uma vez, para dizer
que ainda resta dizer o que quer que possa
ser dito, que ainda resta o que dizer,
porque querem que nada mais reste
a dizer, querem silenciar o que há
para ser dito, como quem silencia
toda e qualquer possibilidade, toda
e qualquer impossibilidade que afete
o possível, estou aqui, então, dizendo
que ainda há o que dizer
mesmo que isso não seja dito
com qualquer esperança, digo, mesmo
sem qualquer esperança, mesmo sem medo,
digo mesmo na vulnerabilidade atiçada
que nos constitui, na vulnerabilidade
que, apesar de tudo, nos desconcerta
o medo, levando-nos, apesar de tudo,
a irmos, arrepiados, aonde não iríamos,
que nos dificulta o fato de ainda termos
o que dizer, mas, ao mesmo tempo,
o instiga, instiga o que resta a dizer,
instiga a possibilidade do impossível
a dizer, que, quando dito, afeta,
imediatamente, transformando-nos,
o nosso real, que é esse haver, ainda,
o que dizer, esse haver, ainda, tudo
a dizer, esse haver um resto a dizer
que se confunde com o tudo a dizer,
com o possível a dizer, com o impossível
a dizer a tornar o impossível possível,
que nos faz estarmos aqui juntos,
que nos faz não termos desistido
de dizer, que nos faz dizer
o que ainda pode ser dito, o que ainda,
apesar de tudo, há para ser dito,
o que, apesar de tudo, resta a dizer,
a dizer, apesar de tudo, o impossível
a tornar, apesar de tudo, o possível
sempre e a cada vez e de novo possível.

 

* Psicanalista, professora de Teoria Literária da UFRJ e participante da Oficina “Práticas da Letra”/ ICP/RJ.

 

Referências:

Freud, S. (1974). Totem e Tabu. In S. Freud. Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud (vol. 13, pp 11-191). Rio de Janeiro: Imago. (originalmente publicado em 1913).

Lacan, J. (2003). Nota sobre a Criança. In J. Lacan. Outros Escritos (V. Ribeiro, trad., pp. 369-370). Rio de Janeiro: Jorge Zahar. (Trabalho originalmente publicado em 1969).

Um sonho de Freud ou uma tese de Lacan?

Por Ruth Helena P. Cohen

Segundo Miller, “todo mundo é louco” é um desdobramento do “Nada es más que sueño”, de Freud (MILLER, 2015, p. 339). Esse ‘para todos’, universal, na generalização do sonho ou no entre aspas do delírio, carrega consigo uma tensão, já que o discurso analítico trabalha com a singularidade e encontra, na particularidade das estruturas clínicas, referência ao universal. O que temos, então? Miller nos dá a chave e, assim, abrimos a porta da articulação entre o impossível e o contingente. Seria o contingente o despertar para continuar sonhando? A loucura generalizada, se não é psicose como categoria clínica, como incluir nela o delírio? Basta que um significante se articule a outro, diz Miller (1995), para que o delírio tome ares de saber. Ou seja, todo saber é delírio e o delírio é um saber.

O inominável, o gozo impossível, leva-nos à pergunta sobre os saberes. De que maneira se pode passar do impossível saber, para um saber não-todo? Os testemunhos de passe buscam transformar o saber de um só, fruto de uma experiência, em matéria de ensino para todos. Na verdade estamos no terreno e na herança aristotélica entre o para todo x e o existe um, da matemática moderna dos quantificadores proposicionais de Frege, que Lacan utilizou para localizar as posições feminina e masculina nas fórmulas da sexuação – ou seja, o “não-todo” fálico e o todo fálico – e, para isso, valeu-se do quantor ∀ para o universal e ∃ para existência.

Se o discurso analítico não se sustenta do universal, por outro lado, o “todo mundo é louco”, seja do elogio da loucura proposto por Erasmo de Rotterdam seja da frase de Lacan, é tributo que percorre o tempo para dizer que o gozo, a verdade e a loucura são nomes que damos para localizar o lugar do “Ya-Nadie” ou de “o sujeito é feliz” (MILLER, 2015, p. 340). Nesta direção, podemos dizer que o analisante sonha pela via particular de seu sintoma e delira quando não tem a bússola do Nome-do-Pai como instrumento, percorrendo, assim, os labirintos do saber não orientável, como nos indica Miller (idem, p, 318), fazendo alusão à banda de Moebius.

Qual seria a diferença entre o delírio privado de Schreber e aquele que encontramos no último ensino de Lacan, ao considerar a própria ordem simbólica como um delírio? Posta esta questão, cabe repensarmos o lugar do analista, no século XXI, quanto às consequências clínicas do tratamento do falasser, cujo Nome-do-Pai não tem mais função de nomeação, mas de predicado. Miller nos dá a pista: “Ser analista é saber que seu próprio mundo, seu próprio fantasma, sua própria maneira de fazer sentido é delirante. É a razão pela qual vocês tentam abandoná-lo, somente para perceber o delírio próprio de seu paciente, sua maneira de fazer sentido” (MILLER, 2010).

 

Referências Bibliográficas

MILLER, Jacques-Alain. Efeito do retorno à psicose ordinária. Em: Opção Lacaniana On-line, ano 1, n. 3, nov. 2010. p. 1-30. Disponível em: <http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_3/efeito_do_retorno_psicose_ordinaria.pdf>. Acesso em 19 jun. 2017.
MILLER, Jacques-Alain. Todo el mundo es loco. Buenos Aires: Paidós, 2015.
MILLER, Jacques-Alain. El saber delirante. Em: Conferência 1995. Buenos Aires: Paidós, 2005.

Desatino! Extra – Boletim das XXV Jornadas

Atividade preparatória para as XXV Jornadas da EBP Rio e ICP-RJ sobre Loucuras e Amores na Psicanálise

A Coordenação das Jornadas, em parceria com a Comissão Científica, coordenada por Maria Silvia Hanna, convida a todos para uma conversa com Angela Negreiros, Paula Borsoi, Romildo do Rêgo Barros e Ruth Cohen, que são os responsáveis pelos quatro eixos temáticos que irão orientar os trabalhos das mesas simultâneas. Nessa ocasião, vamos escutá-los sobre a chegada dos trabalhos e sobre os temas que serão aprofundados em cada um dos eixos.

A preparatória vai acontecer no sábado, dia 23 de setembro, às 10:30, na Seção Rio, Rua Capistrano de Abreu, nº 14.

O prazo para o envio dos trabalhos vai de 10 a 30 de setembro. Não deixe para a última hora!!! Os detalhes para o envio estão no Blog das XXV Jornadas.

Andréa Reis e Angela Batista