Um comentário sobre a exposição Porque ¡yo escribo!

Por Thereza De Felice

Que lugar para uma escrita no mundo, se não for pelo imaginário, comunicável e compartilhável?
Os caminhos trilhados por Lacan, da instância da letra aos litorais de Lituraterra, os testemunhos de passe, com seus neologismos, letras e outros modos de escrita, e algumas invenções artísticas que se aproximam dessas rasuras, são jeitos que encontramos para tentar responder a esta pergunta.
A exposição Porque ¡yo escribo!, de curadoria de Agustin Pérez Rubio, em cartaz no Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires – MALBA até o dia 9 de outubro, apresenta o instigante trabalho de caligrafia da artista argentina Mirtha Dermisache, bem como páginas de seus diários e trocas de cartas – em especial com Roland Barthes, interlocutor interessado na “escrita ilegível” de Mirtha.
Vemos em sua obra um trabalho com a letra que explode o sentido; desenha uma escrita sem que predomine qualquer significado. Esses traços parecem se assemelhar com os traços de uma letra-litoral, onde uma fração de gozo comparece num espaço entre real e simbólico, totalmente esvaziado de imaginário.
Acompanhamos, na exposição, um relato de Mirtha sobre o lugar de sua escrita. Um (não)lugar solitário, associado ao que chama de uma loucura desta escrita, loucura estampada por sua incompatibilidade com os sentidos e significantes prévios do mundo. A escrita desta artista carrega com força a presença do gesto, do “singular da mão que esmaga o universal”, como diz Lacan da caligrafia japonesa em Lituraterra (1971, p.20). Suas linhas capturam o olhar do espectador, não por um suposto sentido da escrita, mas por fisgar ali um real. Seu fazer com a letra, ela o traduz de modo afirmativo: “eu escrevo”.

“Desde hace unos meses pienso que en mi trabajo estoy demasiado sola.
A veces (a raíz de esto) pienso q’ la meta (a pesar mío) será algo así como la locura. (O porq’ no?, la locura).
Ni siquiera leo ni libros, ni diários ni revistas. Ni estudio nada. Ni me pienso con grupos que ‘hagan algo’, cosa que parece ser muy importante en este momento en esta ciudad y especialmente para la gente del ‘corto circuito’¹.
Todos de alguna manera pertenecen a ‘algo’. Y yo, no es que no quiera, pero me siento no perteneciendo a nada en especial (ahora pienso q’ de una forma, diría: casi lamentable//, tengo una manera rara de pertenecer a todo).
En el nivel del trabajo, mis cosas son totalmente rechazas (con algunas excepciones) por los que escriben². Por supuesto, ya hace tiempo que ni menciono el :- yo… escribo…-
Quizás algún otro día siga con todo esto.
Junio de 1971.

¹ Bario Norte y alredores
² Por los q’ no escriben también…”

 

 

Referências Bibliográficas:
LACAN, J. (2003[1971]) Lituraterra. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
RUBIO, A. P. (curador) Exposição “Porque ¡yo escribo!” – Mirtha Dermisache. Museu de Arte Latinoamericana de Buenos Aires, 2017.

Anúncios