Psicose Ordinária: um comentário

Por Lenita Bentes

“Posso agora refletir sobre o motivo que me levou a sentir na época a necessidade, a urgência e a utilidade de inventar este sintagma – psicose ordinária. Diria que foi para driblar a rigidez de uma clínica binária: neurose ou psicose”.

(MILLER, 2008, p.402)

O que ganhamos com o sintagma psicose ordinária é que este traz precisão ao vasto campo da psicose, flexibilizando o binarismo neurose-psicose, sem ferir as formulações de Freud e Lacan quanto às estruturas classicamente definidas.

Entretanto, a Psicose Ordinária é uma categoria clínica lacaniana, mais precisamente recolhida de seu último ensino, a qual lança luz sobre tipos de funcionamento frequentes que muito embaraçam a clínica. Trata-se da nada rara clínica denominada por Miller como Psicose Ordinária, que não tem definição rígida, mas provoca um grande “eco clínico”.

O diagnóstico impossível de concluir encontra um campo teórico clínico espesso. A Psicose Ordinária é um “terceiro excluído” da clínica binária neurose-psicose. É uma clínica dos pequenos indícios, das nuances, das tonalidades. Contudo, mostra com clareza a compensação da foraclusão do Nome-do-Pai que Lacan enfatiza desde seu primeiro ensino.

Valho-me da escritora Clarice Lispector, numa passagem esclarecedora: “devemos ter muito cuidado quando tocamos no que nos parece ser o defeito de alguém, pois, muitas vezes, é em torno dele que ela organiza a sua vida”.

Referências

MILLER, Jacques-Alain. A psicose ordinária. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.

Anúncios