Encontros na pólis

Por Roberta D’Assunção

Em sua apresentação do Centro Inter-disciplinar de Estudos sobre a Criança (Cien), Judith Miller nos convoca a pensar “em que real o discurso do mestre está confrontado no seu esforço de normatização.” (MILLER, 1998) Real que interessa ao psicanalista ouvir dos pequenos grupos que habitam essa pólis inter-galáctica atual.

Recentemente, tivemos uma conversação* no CienRio inspirada pelo testemunho vivo e corajoso do pai de um adolescente autista. A lida diária e ininterrupta com o filho, bem como a dificuldade em encontrar um lugar no sistema educativo e na cidade para os dois, foram difíceis de suportar e tiveram efeitos segregativos.

Se a lei que torna obrigatória a oferta de mediação escolar garante uma vaga para a criança no discurso pedagógico, durante a conversação percebemos que será necessário ainda um “bom encontro” para  que a criança faça parte do cotidiano escolar. Necessário mas nem sempre possível. A possibilidade surge na fala da diretora de uma escola sobre o “apaixonamento” de uma criança autista por seu colega de classe que a leva a participar das atividades e se enlaçar nas amizades. O colega foi escolhido pela criança como seu mediador, desafiando as expectativas de contratar um profissional especializado para tal.

A presença do analista no Cien introduz uma lógica não dogmática e ajuda a manter vivo o real em torno do qual esses discursos circulam, abrindo brechas para crianças, adolescentes, pais e profissionais criarem suas respostas, “pois coloca em jogo novos elementos extraídos da contingência do encontro naquela conversação.” (BARROS, 2017) O psicanalista tem como tarefa destacar os significantes emblemáticos destes encontros contingentes que os laboratórios recolheram nas ruas, Caps, abrigos, escolas, hospitais, e que produzem um caldo rico de práticas e falas inéditas na cidade.

 

*A conversação contou com participantes dos laboratórios do CienRio: “A criança entre a mulher e a mãe”, “Singularizar o cuidado”, “Brincante”, “Digaí-Escola”, “Infância Errante” e “Pipa-Voada”.

 

Referências

MILLER, Judith. Cien: Apresentação por Judith Miller. Correio. São Paulo: EBP, n. 21-22, nov.1998.

BARROS, Maria do Rosário Collier do Rêgo. A prática interdisciplinar do Cien. In: Brown, N.; Macedo, L.; Lyra, R. (Orgs.) “Trauma, solidão e laço na infância e na adolescência: experiências do Cien no Brasil”. Belo Horizonte: EBP, 2017.